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5 de Julho, quarenta anos

Germano de Almeida | Editoria Opinião | 01/08/2015

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Quarenta anos está no nosso imaginário como um tempo que não se deve deixar passar em branco, e agora que Cabo Verde completou 40 anos de país independente um bom lote de festejos foram e vão sendo organizados: conclui-se o concurso «Somos Cabo Verde – os melhores do ano», os combatentes da liberdade da Pátria receberam finalmente as respetivas faixas, um considerável número de artistas e outros cidadãos foram medalhados, uma cachupa gigante foi organizada na Praia (tão grande que se acredita venha a merecer as honras do Guiness Book), e em 5 de Julho houve missa comemorativa. 

Só por isso já se vê que os tempos são outros. Por exemplo, no 5 de Julho de 1975 pode ser que se tenha cantado A Internacional»; no 5 de Julho de 2015 ter-se-á cantado o «Te Deum». Bem entendido que nós continuamos afirmando um Estado laico, ainda que o Presidente da nossa República se tenha dobrado para fervorosamente beijar a mão do Papa quando foi recebido no Vaticano, e recentemente se tenha decretado o ensino da religião nas escolas públicas do país. 

Bem, o pluripartidarismo político não ajudou, pelo contrário, contribuiu para perturbar certas datas. Por exemplo, queira-se ou não, 5 de Julho, dia da independência nacional, traz logo à memória a festa no estádio da Várzea, o povo em delírio, Aristides Pereira, Abílio Duarte, Pedro Pires, tantos outros na tribuna, e no meio deles o companheiro Vasco, primeiro-ministro de Portugal, todos ali para assinar o «Instrumento solene de declaração de independência do Estado de Cabo Verde» e ver subir lentamente, solenemente, orgulhosamente, a bandeira da concha, das espigas de milho, da estrela negra que vive no coração de todos nós os mais velhos… «Bandêra di Strela Negro/subi ta gorgoletia na bento;/na korassan di Pobo/saita gritu’l liberdadi» 5 de Julho é, pois, de todos nós que quisemos a independência, mas quem o trouxe até nós foi o PAIGC, não há volta a dar a esta realidade histórica. Mas um deputado do MpD decidiu pôr à disposição do público em geral, para «quem quiser» a sua parte do 5 de Julho e que «tenha bom proveito».

Foi uma dádiva e tanto que a maioria dos cabo-verdianos terá aceite com gosto, porque são datas memoráveis: 20 de janeiro, 5 de julho, 12 de setembro… Claro que há o 13 de janeiro, mas o 13 de janeiro ainda não passa do dia 13 de janeiro, ainda não passou por ele a pátina do tempo. Os outros dias não são dias perenes, prolongam-se no tempo, vivem em nós, fazem parte da nossa identidade coletiva de homens livres, preenchem o nosso património imaterial. É por isso que é simplesmente obscena a peregrina ideia de transformar o memorial Amílcar Cabral em mercado de seja o que for. Na minha ilha ensinava-se que honra é de quem dá, não de quem recebe.

Certamente que Cabral não se sentirá minimamente ofendido com essa ideia de jerico, ele é grande em todos os tempos, bem capaz de se divertir vendo a azáfama das vendedeiras de verduras e peixe fresco a gritar-lhe ao ouvido. 

O problema não é, pois, de Amílcar Cabral, o problema é nosso, de nós que nos permitimos, com toda a leviandade, desbaratar o nosso património, os nossos valores porque, em termos de simbolismo, esse memorial tem para os patriotas a mesma dignidade que tem um templo religioso, e certamente que ofenderia a qualquer ateu ver a frente da igreja matriz da Praia transformada em mercado. 

Os europeus decidiram que a África não tinha história e muito trabalho têm tido alguns africanos para mostrar que temos história sim senhor, independente da nenhuma história que contavam de nós. Mas no geral o cabo-verdiano aposta em esquecer ou ignorar a sua história, os seus valores, os seus símbolos, ainda não aprendemos que os símbolos laicos são tão importantes como os religiosos.

Germano de Almeida

[Texto publicado na edição N.º 99 da revista África21]

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