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Entrevistas

João Melo: «A literatura angolana hoje já não precisa de pedir licença a ninguém»

| Editoria Entrevistas | 03/09/2015

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O escritor e jornalista João Melo afirmou, em entrevista à agência Angop, que a literatura angolana atingiu um estádio satisfatório em termos de qualidade e quantidade.

«Sou muito crítico em relação ao nosso tipo de jornalismo. Há dois ou três vícios que me incomodam - desde logo, a parcialidade»
(DR)

O também antigo deputado considera que em 40 anos de independência nacional se deram passos significativos no processo de afirmação da literatura angolana além-fronteiras.

A entrevista na íntegra:

Angop: Angola celebra em novembro 40 anos de independência, o que pressupõe dizer que são também 40 anos de uma cultura livre. Que literatura se faz hoje em Angola?

João Melo (JM): É uma literatura igual à produzida em países, digamos, avançados. A literatura angolana está num estádio muito avançado, quer do ponto de vista de qualidade em termos de conteúdo quer do ponto de vista da quantidade. A literatura angolana hoje já não precisa de pedir licença a ninguém. É uma literatura consolidada, madura e diversificada. Há muita gente a escrever e com os mais diferentes estilos e resultados, fatores que marcam positivamente o mundo literário nacional.

O jornalismo tem hoje influência na sua escrita literária?

Sim. Sobretudo na minha ficção, nos meus contos. Há uma marca do jornalismo. O estilo, curto, objetivo e incisivo, vem certamente do jornalismo.

Já escreveu várias obras literárias. Está com um longo caminho percorrido no mundo das letras. Sente-se um escritor maduro?

Sim, sem dúvida. Estou num momento em que começo a sentir a necessidade de escrever outras coisas, com maior fôlego. Talvez um romance. Acho que há um ciclo que se fecha e outro que se abre, porque ainda quero fazer muitas coisas no mundo da literatura.

Quais são as suas principais fontes de inspiração?

A principal fonte é a vida. Tenho dito que não sou um escritor de laboratório, de biblioteca. Gosto de viver, preciso de viver. E é daí que me inspiro para a escrita. Tenho algumas dificuldades em compreender os autores que são capazes de publicar todos os anos, e, às vezes, mais que um livro por ano. Não sei se eles vivem ou se apenas escrevem. Eu confesso que preciso de viver antes de escrever.

O seu mais recente livro é Os marginais e outros contos. Para quando um novo título?

Estou a trabalhar num livro de contos em que volto a utilizar o recurso que caracteriza os meus livros de ficção, concretamente o humor, a paródia, etc., para sair em 2016. Até outubro deste ano tenho em perspetiva a publicação de uma antologia poética que designei Amor, pois trata-se de uma seleção de poemas amorosos e eróticos já publicados noutros livros. Faz parte de um conjunto de cinco antologias temáticas que a editora Caminho está a organizar.

Como vê a convivência entre a velha guarda e os jovens escritores?

Há uma quase exigência social em que se pensa que toda a gente se deve dar com toda a gente. Isto é um mito, uma ficção. As pessoas dão-se porque têm uma empatia umas com as outras, têm afinidades, gostam das outras. Quando não gostam, não se relacionam. No meu caso, dou-me com todos os escritores com quem tenho afinidades, sejam mais velhos ou jovens. Podemos ter relações cordiais, não sendo íntimos, mas dentro da maior cordialidade.    

O aumento da produção literária só terá sentido se for incentivada a leitura. Como se processaria a aproximação do livro aos leitores?

É um problema de educação. Como escritores, preocupa-nos o facto de vermos o livro a ser pouco utilizado. Mas, infelizmente, é um problema ligado ao sistema educativo.   

Jornalista e escritor. Que recordações guarda dos tempos de repórter?

Muitas e agradáveis. Vivi bons momentos no mundo jornalístico, entre os quais o acompanhamento de uma Cimeira dos Não-Alinhados no Sri Lanka, como repórter da RNA, na qual participou o Presidente Agostinho Neto. Também a cimeira entre Neto e o Presidente português Ramalho Eanes, em Bissau, que serviu para que os dois países reatassem as suas relações depois de algumas incompreensões, em 1975. Como recordações, tenho ainda em mente as coberturas de algumas cimeiras da SADC e dos Países da Linha da Frente, como repórter da ANGOP.    

Que avaliação faz do trabalho da Angop?

Sou um pouco suspeito, porque tenho a Angop no meu coração, tendo em conta que passei pela agência como repórter, dirigente e correspondente no Brasil. Entre 1978 e o princípio dos anos 80 fizemos um trabalho digno, e constituímos uma equipa com nomes que ainda hoje estão no ativo, entre os quais Adelino de Almeida, José Ribeiro e outras referências. Constituímos naquela altura uma linha de trabalho cujos frutos, pelo menos ao nível da Angop, ainda se fazem sentir hoje, apesar de todas as dificuldades.

Tínhamos uma grande redação naquela altura, uma escola, um estilo que ainda perdura. A Angop foi o primeiro órgão, em Angola, a ter um manual de estilo, e isto marcou, para sempre, o trabalho da agência. Nos últimos tempos, a agência tem sabido adaptar-se às mudanças, como por exemplo do ponto de vista informativo, pois continua a cumprir o seu papel e a ser um órgão de referência para quem quer informações atualizadas sobre Angola.

Se tivesse que fazer uma periodização do jornalismo angolano, em quantas etapas dividia a vigência do jornalismo no país?

Houve épocas marcantes. Os primeiros anos após o 25 de Abril de 1974, até 1976/77, como primeiro período. Como um segundo período temos a etapa que vai de 1977, depois dos acontecimentos de 27 de maio, a 1985. Temos ainda como outro marco os anos 80, com o início de uma etapa de reflexão e autocrítica sobre o trabalho jornalístico. Não podemos esquecer os anos 90, com a realização das primeiras eleições gerais em Angola, isto em 1992, que culminaram também com o surgimento de vários órgãos privados. E a finalizar temos o atual momento, que estamos a viver. Mas é claro que periodização do jornalismo angolano merece um estudo e uma análise mais apurada.

Que jornalismo se faz hoje em Angola?

Sou muito crítico em relação ao nosso tipo de jornalismo. Há dois ou três vícios que me incomodam: desde logo, a parcialidade, e neste sentido vamos do 8 aos 80. Há um certo tipo de imprensa com uma postura claramente antigovernamental, que não reconhece, não valoriza e não noticia as ações positivas realizadas pelo governo. Coloca tudo o que é iniciativa deste sob um clima permanente de suspeição. Por outro lado, há a imprensa governamental, mais ligada ao atual partido no poder, que também só tende a valorizar as ações do governo e onde não há praticamente nenhum sentido crítico. Esta dupla parcialidade, de um e de outro lado, não ajuda os leitores a formularem opiniões independentes. Portanto, não é boa para o nosso processo democrático.

O que falta para a prática de um jornalismo mais produtivo e sério?

Sem pretensões de dar lições e muito menos de passar qualquer receita, diria que talvez falte bom senso, pois o este pode ajudar-nos a corrigir vícios atuais no nosso jornalismo. É preciso entender que o jornalismo é uma atividade de comunicação. Portanto, compete-lhe dar voz aos diversos atores sociais; não substituir-se a eles, não falar em nome deles, mas dar voz a diversas fontes. E cabe ao público formular a sua opinião.

O problema é haver uma certa tendência para o jornalista se confundir com o ativista/justiceiro, quando é um simples comunicador. Os jornalistas devem ser menos pretensiosos e aceitar que o seu papel é o de serem comunicadores, de porem a sociedade a falar entre si, e não de serem ou promoverem causas ou justiça por mãos próprias.

A liberdade de imprensa é um facto marcante no jornalismo angolano na atualidade?

Sim. Mas é claro que, como todos os direitos, e como acontece em todos os países, é objeto de um processo constante, um processo social constante, de períodos de maior abertura e de períodos de mais incompreensões. Isto acontece em todo o lado. O que varia, provavelmente, é o tipo e a natureza dos fenómenos, mas na sua essência as questões são as mesmas. Quer dizer, todos os direitos o são, e a liberdade de imprensa é um deles. E são sempre objeto de uma luta constante entre os diferentes atores sociais. Não nos deve surpreender; devemos apenas saber como jogar e como participar neste jogo. Às vezes, o que mais falta é o bom senso, fator que leva, em alguns momentos, a ridiculizar as posições para se resolver os problemas que possam ocorrer.

Como avalia a convivência entre o velho e o novo no jornalismo angolano?

Não tenho como fazer uma avaliação concreta, tendo em conta que estou afastado das redações (embora continue a ter uma atividade jornalística). Diria que existe ainda uma certa ligação entre os profissionais mais antigos, já que, como se diz por alguns círculos, os jovens são um pouco mais presunçosos, pois acham que sabem tudo, e não querem aprender. Agora, uma coisa é certa: hoje nota-se uma tendência para o estrelismo, para o estrelato, que afeta as práticas do jornalismo universal. Um mau vício.

Sente alguma saudade dos tempos que passou nas redações?

Sim. É uma saudade que nunca passa. Quem já se sentou nos bancos de uma redação e que não o tenha feito por acaso… Conheço algumas pessoas que passaram por acaso em redações. Nem gostavam, porque achavam que era uma situação que os diminuía. Nunca foram jornalistas. Mas quem passou por uma redação por gosto nunca esquece.

A União dos Escritores Angolanos (UEA) tem promovido diversas atividades ligadas à maior divulgação da literatura angolana fora de portas, entre as quais o reforço da cooperação com parceiros estrangeiros. Esta ação satisfaz as pretensões dos homens ligados às letras em Angola?

É, obviamente, mais um exemplo da ação da atual direção da UEA no sentido da internacionalização da literatura angolana. É óbvio que, do ponto de vista individual, agradará todos os autores, embora considere que os nossos leitores são em primeiro lugar os angolanos e depois os estrangeiros. Seja como for, é sempre interessante vermos os nossos trabalhos voarem mais alto e serem conhecidos por outros públicos.

Neste sentido, as iniciativas que a UEA tem levado a cabo no sentido de organizar antologias em outras línguas são, sem dúvida, sempre ações a destacar. Diria que é preciso também complementar com uma maior divulgação e uma maior promoção do livro internamente. O livro em Angola circula mal, e, portanto, a par destas iniciativas devemos também fazer um esforço para promover uma maior circulação do livro dentro da nossa fronteira e nos mercados estrangeiros com a mesma língua que a nossa.  

Que mensagem quer deixar aos jovens jornalistas e aos jovens escritores?

JM: Procurem sempre primar pela excelência, pela perfeição, e não se satisfaçam com a mediocridade. Estudem bastante, procurem sempre melhorar e não se julguem os reis da carne seca, porque ninguém sabe tudo. Estejam sempre disponíveis para estudar e aprender um pouco mais. Todos nós temos a obrigação de estarmos disponíveis para aprendermos outras coisas.

Redação com Agência

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