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Fred

Germano de Almeida | Editoria Opinião | 05/10/2015

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A partir de meados de julho começamos a viver em estado de ansiedade pluviométrica: a chuva vem ou não?

O tempo estava diariamente bonito: quase sempre coberto de espessas nuvens de um azul carregado – de chuva!, todos diziam – de modo que os olhos impacientes estavam ou no céu ou no site que de hora em hora anunciava precipitações para daqui a dois dias, para amanhã ao meio-dia, não, afinal ficou adiado para as duas da tarde!, e todos se preparavam para receber a chuva às duas da tarde, só que à última hora havia sempre um novo adiamento, ninguém sabia porquê, mas agora está garantido que impreterivelmente começará a chover às seis da tarde, desta vez é mesmo certo, pelo menos está no tal site americano que nunca erra, eles acompanham essas coisas rigorosamente…  

Mas foi inutilmente que me postei à janela para ver a chuva cair. Alguém está a enganar-nos, acabei por berrar, ou Deus ou o tal site americano. E dei por mim a dizer como na Boa Vista nos dias da minha infância, Ó Deus, manda chuva à vontade, um pingo um balde! E estávamos nesses dias de desassossego e já desanimados de ter chuva, quando correu a notícia da para breve passagem do Fred. 

O Fred começou por se apresentar como tempestade tropical, mas poucos dias depois evoluiu para «um poderoso furacão que deveria passar sobre as ilhas». Foi uma emoção generalizada. Estamos na origem de quase todos os furações que assolam as Américas, porém o último que nos visitou expressamente foi em 1892. E ainda por cima Fred prometia chegar em força, com ventos de 180 km/hora, para além de chuva com fartura. 

De modo que durante três ou quatro dias não se falou de outra coisa, seja Governo, seja comunicação social, seja as redes sociais com informação up to date. Programas da rádio e televisão foram especialmente concebidos para ensinar o vulgo como enfrentar o Fred: fechar-se em casa; manter todas as portas e janelas fechadas e trancadas; ter sempre à mão um kit de socorro constituído por um aparelho de rádio a pilhas, uma lanterna elétrica e um telemóvel; durante o ataque nunca se aproximar das portas e janelas, pelo contrário, procurar proteção junto de paredes de pedra; as pessoas que vivem em barracas ou casas de tambor devem procurar abrigo nos vizinhos; prevenir a casa com alguns víveres… 

Na manhã do segundo dia soubemos via rádio que o Fred tinha assaltado a ilha da Boa Vista, o Sal e São Nicolau, com abundância de vento e chuva nas duas primeiras, praticamente só com vento na última, em todas, porém, com estragos consideráveis, particularmente no Sal, onde tinha quase destruído o vetusto pontão de madeira, ícone turístico que vem dos tempos áureos de Manuel Martins. E o Fred agora como que repousava, reunindo forças para atacar São Vicente e Santo Antão antes de seguir rumo às Américas. 

E, de facto, às 5 da tarde abri a rádio e ouvi o alarme: Fred passa sobre São Vicente às 18 horas! Há ordens para serem fechadas todas as repartições públicas e o comércio em geral, devendo as pessoas recolher-se às suas casas onde devem permanecer trancadas, longe das portas e janelas até o furacão passar.  

Corri para a cozinha onde encontrei a minha empregada: Já para a tua casa, ordenei, o Fred passa daqui a pouco. Tenho roupa para passar, respondeu tranquila. Larga tudo, ripostei, larga tudo e corre, se o Fred te apanha pelo caminho, enrola-te num canudo e leva-te com ele para a América. Isso é que eu bem gostaria, sorriu ela.   

Mas foi falso alarme, o Fred não passou às seis. Está atrasado, deve estar a vir num voo da TACV, parece que passa às nove horas.  

Perto das nove as portas e janelas voltaram a ser trancadas, o kit à mão e nós na espera. Tudo calmo, o tempo numa serenidade eclesial. E passaram-se horas e horas, e nada de Fred. Vou para a cama, mesmo que adormeça, ele chegará com desaforo suficiente para me acordar. 

De manhã chovia mansamente. Liguei a rádio e fui à janela ver a chuva enquanto ouvia que as ilhas estavam ensopadas, as barragens transbordavam, Salineiro, Saquinho, Faveta, Poilão, Figueira Gorda, Canto de Cagarra… Que grande invenção, as barragens!

E Fred? Bem, durante a noite Fred tinha contornado São Vicente e Santo Antão e viajava agora rumo à América. Como presente tinha deixado a chuva, a melhor dádiva com que sonha o cabo-verdiano. E foi por isso lhe perdoamos a arrogância de não nos ter achado dignos da sua fúria.

Germano Almeida

[Texto publicado na edição N.º 101 da revista África21]

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