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O enterro do cinema

Pepetela | Editoria Opinião | 05/10/2015

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Era eu menino quando participei da primeira greve, a qual foi assaz importante para a minha formação cívica.

Esta primeira, de que me recordo mais por ouvir contar que por ação consciente, foi a mais interessante. Se passou na pacífica e modorrenta cidade onde nasci, São Filipe de Benguela (O Filipe do nome era uma homenagem ao rei espanhol que na época da criação da urbe dominava Portugal e o seu império. O que carrega alguma ironia: que eu saiba, nunca nenhum benguelense ou governante tentou mudar o nome durante todo o período colonial, num assomo de nacionalismo português; entretanto, o Filipe desapareceu com a Independência, não faço ideia se oficialmente se por desuso).

Nos anos quarenta do século passado, a cidade tinha apenas um cinema para cerca de cem pessoas, minúsculo se comparado com os da época noutras localidades de mesma importância. Era o Cine-Benguela, propriedade do Ferreira Pires. Este cobrava 17,50 angolares por bilhete, enquanto em Luanda em qualquer cinema o bilhete era de 12,50 angolares. Na cabeça do proprietário, a viagem das bobines de barco até ao sul justificavam os cinco angolares a mais. Algum historiador que se interesse poderá talvez descobrir a razão da sublevação e seus detalhes que desconheço, só me lembro de a dado momento a população se indignar com a disparidade de preços. Ainda por cima, a rivalidade era fortíssima em relação à capital e havia sempre uns revoltados protestando contra o centralismo de Luanda. Centralista e ainda por cima com cinema mais barato, uma verdadeira injustiça. A ideia de se fazer uma greve ao cinema começou a correr em surdina até ser estampada no jornal O Intransigente, conhecido por ser da oposição a Salazar.

As discussões terão começado no bar Guimarães, centro da má-língua política, má-língua em geral e, se dizia, segunda sede da Kuribeka (a maçonaria do burgo). Foi discutido que, se toda a gente falhasse às sessões, o cinema falia e seria fechado, o que também não era desejado. A ideia luminosa apareceu então: toda a população ia para o largo do cinema protestar contra o preço, mas vinte voluntários, em sistema rotativo, compravam bilhete e assistiam à sessão, retirando ao dono o argumento da falta de clientela e se livrar da sala velha e a dar mais trabalho que lucro. A greve durou. Naqueles tempos em que não havia televisão nem jogos de futebol noturnos, só um ou outro baile de fim de semana e os bares, com respetivos jogos de cartas, entretinham os cidadãos que recusavam a cama logo após o jantar. Por isso toda a malta encontrou diversão em se reunir à frente do cinema, chamar todos os nomes ao coitado do Ferreira Pires, senhor amigo do meu pai de que eu tinha aliás boa impressão, se é possível lembrar as impressões de quando se tem seis ou sete anos. Mas íamos todos e por lá ficávamos até a sessão começar, gritando, insultando. Quando tocava a música anunciando o filme propriamente dito, dispersávamos. O braço de ferro durou semanas.

Da Kuribeka saiu nova ideia, fazer o enterro do cinema. Organizaram uma marcha, com velas e archotes, saindo do bairro da Massangarala até ao largo. Mais de metade da cidade era atravessada por essa procissão laica, cuja figura principal era um grande caixão confecionado numa fábrica de móveis da zona. À hora do começo da sessão, ninguém entrou, toda a cidade cantou a marcha fúnebre. E ficou em silêncio sepulcral, com o caixão à entrada do cinema.

Talvez o Ferreira Pires fosse supersticioso, somos todos. Baixou o preço dos bilhetes. Com esta vitória acabou a minha primeira greve.

Pepetela

[Texto publicado na edição N.º 101 da revista África21]

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