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Lura, a badia alfacinha

Germano de Almeida | Editoria Opinião | 10/12/2015

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Lura veio a Mindelo apresentar Herança, o seu novo CD, e teve a amabilidade de enviar-me um convite para estar presente no concerto na sala J.Monte. Normalmente já não vou a esses espetáculos. Com a idade as articulações ficam mais difíceis de gerir e rapidamente entro em sofrimento entalado entre duas filas de cadeiras sem poder mexer as pernas. Não compensa!

Porém, no caso da Lura é diferente. Não só temos em comum termos nascido no mesmo dia do mês, como há anos atrás, naquele tempo em que a RTP-África fazia os lançamentos dos nossos livros em direto aos fins de tarde, com direito a música ao vivo e tudo o mais, ela tinha aceite um convite para prestigiar-me a mim e ao meu livro com a sua presença e a sua voz que, em força, cada vez contrasta mais com o seu tamanho petit mignon.

 De modo que não podia recusar estar presente. E foi bom, uma festa: não só há espaço entre as cadeiras suficiente para esconder as pernas, como também a Lura foi magnífica na atuação. Bem, na verdade começou por surgir tímida detrás das cortinas vermelhas, como se estivesse acanhada diante da sala cheia. Mas cantou sorrindo uma coladeira e a seguir outra, quase parada diante do microfone, como que tomando o pulso aos espectadores. E deve ter achado que tudo caminhava pelo melhor porque logo a seguir escancarou a enorme boca num enorme e deliciado sorriso e gritou «Boa-noite, Soncente!». E durante cerca de uma hora falou um pouco e cantou muito e deleitou os ouvintes que aplaudiram sentados e de pé, e no final, quando disse que já se ia embora, o público exigiu-lhe o regresso aos gritos de Lura!Lura!Lura e ela voltou, disse sorrindo feliz e brincalhona que era disso mesmo que estava à espera. E fez mais três interpretações que acabou por terminar com o festivo e soberbo Na Ri Na, Ó Na Ri Na, no ta brinca só ia-ia!, aquele funaná que incentiva a dançar aos saltos e a dar cambalhotas na areia. 

Não é por acaso que o CD de Lura se chama Herança, uma herança que ela recolhe desde Goré, no Senegal, passando pela Cidade Velha, percorrendo a Somada e outros lugares, numa busca inquieta Di Undi Kim Bem, mas para finalmente fincar os pés neste chão único e Sabi di Más que são as nossas ilhas. 

Dizem-me que Lura nasceu e cresceu em Portugal e de facto o seu sotaque é o de uma alfacinha culta, habituada ao domínio da língua portuguesa. Porém, quando a gente ouve o seu crioulo profundo de Santiago, quer a falar quer a cantar ou quando a gente a vê dançar, tem de concluir que ela é afinal uma badia di pé ratchado que parece nunca ter feito outra coisa na vida para além de cantar e dançar funaná e batuque! Porque toda a sua postura transpira Santiago, esse lado selvagem que não se apreende por imitação ou adestramento e de que só é capaz quem o mamou da terra e o possui no sangue e o deixa fluir espontâneo e sem esforço, antes sorrindo feliz na alegria partilhada di toma pano pa da cu torno, um movimento sensual que pode ser comum das ilhas mas que só com as badias nos enche a alma. 

Mas logo a Lura se distrai a falar e nem ela sabe que língua está usando e entremeia crioulo e português (que língua estou falando, pergunta, mas eu queria falar em crioulo!), porém distrai-se de novo na conversa, fazendo as duas línguas conviver como se fossem uma só, pelo menos para quem compreende ambas.

Há bem poucos dias cruzei-me com um jornal que falava de alguns cabo-verdianos que tiveram um pouco de sucesso em Portugal, e a sua apresentação era assim: fulano de tal, natural de Cabo Verde, nascido na Cova da Moura… Bem, não deixa de ser um artifício, mais político que jurídico, dizer que alguém que nasceu na Cova da Moura é natural de Cabo Verde. Mas foi o expediente inventado para recusar a nacionalidade por jus soli a milhares de indivíduos que, não obstante, não conhecem qualquer outro país para além daquele que os rejeita. Bem, felizmente que a Lura atingiu uma dimensão e um estatuto que lhe permitem escolher o país e a herança que deseja cultivar e ela está entre nós e estamos contentes por isso.

Germano de Almeida

[Texto publicado na edição N.º 103 da revista África21]

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