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Cidac

Luís Cardoso | Editoria Opinião | 10/12/2015

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Uma sigla que todos aqueles que militaram na luta anticolonial nunca esquecerão. Quando cheguei a Portugal chamava-se Centro de Documentação Anti-Colonial. Ficava lá para aos lados de Picoas, na rua Pinheiro Chagas, em Lisboa. Tinha um rosto que era o de Luís Moita, um professor universitário que esteve associado à ocupação da capela do Rato, em vigília pelo fim da guerra colonial. Por lá passaram muitos dos dirigentes dos movimentos de libertação dos países de língua portuguesa e também representantes de movimentos que lutavam contra as ditaduras na América Latina ou em processo de descolonização.  

Cada um contava as histórias dos deserdados dos seus países ao mesmo tempo que proclamavam que, um dia quando tomassem o poder, haveria distribuição da riqueza nacional que estava concentrada nas mãos de alguns. Eu ouvia aquelas histórias e a forma convicta como falavam dos seus propósitos deixava-me encantado. 

Foi lá que Timor-Leste encontrou a sua mais firme base de apoio na Europa, através duma organização associada ao CIDAC e que foi criada para o efeito. Chamava-se CDPM, Comissão para os Direitos do Povo Maubere e tinha como rosto uma senhora franzina mas cheia de convicção, Luísa Teotónio Pereira. Durante anos foi constante a determinação, com recolha de dados que religiosamente apresentavam na Comissão dos Direitos do Homem, em Genebra, denunciando as atrocidades do ocupante indonésio.  

Pouco a pouco as notícias que nos foram chegando davam conta que muitos dos que haviam passado pelo CIDAC desciam das montanhas e, como representantes dos deserdados das suas terras, iam tomando conta do poder. Também do ouro, da prata da casa, das terras e da Pátria, que diziam pertencer aos deserdados da terra. Do movimento de massas passaram a partidos do poder, únicos nos primeiros tempos e mais tarde legitimados pelas eleições em que normalmente venciam folgadamente, ou nós ou a desgraça. 

Acontece que, passados esses anos todos, os deserdados continuam deserdados. Pior ainda, destituídos da ideologia de libertação que durante anos os animaram na fé e na esperança de construir um mundo melhor. Têm uma Pátria mas sem meios para construir uma vida digna. Naufragam na história e nas marés da contrarrevolução. É então que procuram para as suas vidas, tábuas de salvação. As religiões abrem-lhes as portas. Algumas são seitas. Outras estão eivadas de fundamentalismos que lhes prometem vidas faustosas no Paraíso.    

No fundo não são mais do que o grosso exército de órfãos das lutas de libertação contra as potências dominantes. Procuram nas antigas metrópoles coloniais formas de subsistência, furando as barreiras das fronteiras, como acontece em Calais. Tentam uma e outra vez. Até que um dos lados se canse.   

Na época natalícia aterram nos aeroportos das grandes metrópoles aqueles que em nome dos deserdados tomaram conta do poder. Entram pela porta grande com as malas cheias de notas e compram tudo, numa fúria devastadora como quem não sabe o que há de fazer com tanto dinheiro. Na saída o empregado da loja abre-lhes a porta e sorri, Merry Christmas! 

Hoje o CIDAC ostenta um outro nome, Centro de Informação e Documentação Amílcar Cabral, e os seus dirigentes continuam eivados do mesmo espírito solidário que sempre norteou aquela instituição. Amílcar Cabral foi o mais lúcido pensador das lutas de libertação nacional. O mais puro e íntegro. A morte roubou-lhe a vida ainda jovem, salvando-o desse fatídico destino que ensombra a vida faustosa daqueles que um dia prometeram aos deserdados, o paraíso na terra, quando tomassem o poder.    

Luís Cardoso

[Texto publicado na edição N.º 103 da revista África21]

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