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As cedências da vida

Germano de Almeida | Editoria Opinião | 01/03/2016

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Desde que regressou do estrageiro que o meu primo não é o mesmo homem. Tão depressa está alegre, eufórico e efusivo como fica combalido, cabisbaixo, praticamente mudo e de olhos no chão, e há dias confidenciou-me que acha que está a ficar bipolar. Sim, disse-lhe a rir, vejo que preferes a designação moderna, nós no nosso tempo dizíamos maníaco-depressivo, que é sem dúvida uma expressão muito mais chique, para além de mais misteriosa. 

Mas aconteceu que ainda no meio da incubação dessa nova maluqueira, resolveu-se a questão de uma herança e ele ficou com direito a uma pequena propriedade no Mato Inglês. Eu no teu lugar vendia aquilo e fazia uma viagem, sugeri-lhe, ir degustar umas pratalhadas de arroz de lampreia… Nãaooo, disse ele profundo, nada de viagens pelos tempos mais próximos, nada de me afastar do conforto das ilhas, sabes, regressei da última viagem muito traumatizado! 

Porém, o espírito inquieto pedia-lhe mudanças. Decidiu, pois, ir morar no campo. Estamos em outubro, raciocinou, daqui a pouco estamos nas confusões das festas do fim do ano; a seguir entramos nas batucadas do Carnaval e logo depois chegam os horrores da campanha eleitoral. Ora desses três, que o diabo escolha o menos mau. De modo que com um mínimo de obras no pardieiro ali existente, crio um espaço habitável. Sozinho, pergunto-lhe. Sim, sozinho, vou dedicar-me à concentração, à meditação, digamos que um Buda ilhéu a tentar encontrar um sentido útil para a vida. Em resumo, digo-lhe, vais-te dedicar ao ócio. Vocês têm a mania de desprezar o ócio, respondeu, esquecem que foi graças ao ócio que surgiram não só as grandes descobertas da Humanidade como também as obras de arte cuja beleza nos deliciam. A república de Platão estaria ainda no limbo se ele tivesse continuado a comprar e vender azeite, e a lei da gravidade ainda por descobrir se Newton não tivesse tido necessidade de descansar debaixo da macieira. Mas claro que estarei moderadamente em contacto com a civilização, a casa tem energia elétrica, assim posso ter o essencial, televisão, frigorífico, mandei fazer portas e janelas de rede por causa da bicharada, moscas e mosquitos, resolvo a falta de internet com uma pen, a vida agora está bastante facilitada. Enfim, concordei, um eremita moderno montado num jeep todo-o-terreno e que não dispensa nenhuma das vantagens da civilização. E nesse sentido fazes bem, seria lamentável morreres de diarreia como o Buda antigo, apenas por falta de um meio de transporte à mão. 

Mal se instalou o meu primo convidou-me para provar uma tagine de borrego, especialidade que disse ter aprendido em Marrocos. Do meu lado não quis chegar de mãos vazias e levei-lhe um livro Pilhagem de África que tinha acabado de ler. Só que dias depois ele me apareceu em casa a devolver o livro. É um horror, resumiu. O livro, estranhei, eu gostei! Leste o capítulo sobre Angola, perguntou. Sim, claro! E não te molestou aquela gigantesca pilhagem sobre uma terra e um povo indefeso? Não particularmente, respondi, todos são assim, em Angola podem é ser mais descarados. 

Estou a sentir-me um bocado frustrado, acabou por dizer depois de um prolongado silêncio. Então porquê? Estou a sentir-me cúmplice deste crime angolano, disse contrito, estou a contribuir para mais enriquecer essa gente sem alma!  

Devo ter olhado para ele com um ar tão aparvalhado que o meu primo sentiu necessidade de explicar: ao mudar para o campo tinha adquirido o cartão de telemóvel internet da Intel T+. Mas depois de ler todas aquelas patifarias sobre Angola, de raiva retirou-o do telemóvel, esmagou-o com um martelo e de seguida foi à cidade expressamente comprar um cartão CVMóvel… Muito bem, observei, preferiste a colonização portuguesa à angolana. Sim, na realidade eu queria fazer isso, disse contristado, mas infelizmente foi por pouco tempo, o sinal dos portugueses não chega a minha casa. Tive que engolir a revolta, meter o rabo entre as pernas e voltar a comprar um novo chip T+… Estás a ver as cedências a que vida nos obriga?

Germano de Almeida

[Texto publicado na edição N.º 105 da revista África21]

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