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Ano novo em Salvador da Bahia

Pepetela | Editoria Opinião | 01/03/2016

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Praia da Barra, Salvador, Bahia. Havia festa de réveillon no Hotel, fazia parte do pacote. Mas a música não era interessante e tanta gente junta deixava espaço nenhum para dançar. Ainda por cima, não taparam a piscina, o que daria um bom palco e assim apenas ocupava um pedação do terraço. Ninguém dançava, se limitavam a olhar para o relógio e comer, à espera da meia-noite. Resolvemos abandonar mordomias de segunda classe e descer para a rua, onde tudo acontecia com muito mais animação. Gente caminhando nos dois sentidos, fazendo tempo até à meia-noite, ou sentada nas esplanadas tomando caipirinhas e cerveja. Famílias, muitas famílias, crianças entusiasmadas com o fogo de artifício anunciado para vários sítios. Toda a gente com uma peça de roupa branca.

Já antes tínhamos assistido na mesma praia a uma cena interessante. O pôr-do-sol quase sobre o mar, de facto desaparecendo atrás da pequena elevação da Ilha de Itaparica, que fica em frente de Salvador.

Nos anos 90 do século passado assisti com a família nessa ilha fabulosa como meu saudoso amigo João Ubaldo Ribeiro convivia em libação e risos com seus personagens ainda vivos. Nossa visita de então tinha atrasado de dois dias a morte de Maria das Dores, personagem central de seu magistral romance Viva o Povo Brasileiro, porque ele já sabia que ia entrar em depressão depois de a matar e não o podia fazer com visitas. Delicadeza de escritor que deu dois dias a mais a essa maravilhosa personagem. Como ele me contou mais tarde, matou-a no dia em que saímos da Ilha e de sua casa, para ficar duas semanas sem ser capaz de escrever ou fazer mais nada, desesperado pela perda que se autoinfligira. Podemos perguntar porque morreu então Maria das Dores? A resposta para mim é óbvia, tinha de morrer e de morte matada. Nem lhe perguntei, seria uma ofensa e mostra de falta de sensibilidade. 

Desta vez já não havia João Ubaldo mas estava lá a sua ilha preferida, escondendo o Sol. Como o Sobreiro o faz em Benguela. Mas em Salvador, pelo menos nessa praia privilegiada, o desaparecimento do astro provoca uma grande aclamação por parte das pessoas que se juntam na amurada da marginal, saudando-o e desejando que no dia seguinte volte para nos torrar. Julgámos ser aclamação devida ao último pôr-do-sol do ano. Mas no dia seguinte aconteceu de novo e então pensámos, estão a festejar o primeiro pôr-do-sol de 2016. Nos explicaram depois, era costume de todos os dias, mas com maior afluência no fim do ano, claro. Tivemos a ventura de comprovar.

À noite estava muito mais gente na marginal, mas dava para passear. Famílias com bebidas e comidas, em mesas e cadeiras alugadas, se juntavam no passeio e também na areia. Para passar o tempo, grupos dançavam a capoeira. Pessoas, particularmente mulheres, iam lançando rosas brancas ao mar, em homenagem a Yemanjá, familiar de Kianda. E vieram os fogos da meia-noite, uns lançados a partir do famoso Farol da Barra, à esquerda, outros, vários, de Itaparica, à frente. O mar, indiferente, se espraiava em ondas e espuma sobre os rochedos submersos. Não havia danças, apenas aplausos, gritos de alegria, corridas de crianças. E mais flores no mar. Um copo para todos os amigos desaparecidos, em particular os escritores, meus mestres, que puseram a Bahia nos sonhos do mundo. Convívio com gente simples, na fantástica policromia de gentes que Salvador tem, com todas as religiões e crenças convivendo pacificamente, desejos a todos de Bom Ano, pelo menos melhor que o passado.

Poderia haver melhor sítio para recomeçar a acreditar na Humanidade?

Pepetela

[Texto publicado na edição N.º 105 da revista África21]

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