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Talha-me um casaco igual ao do fulano…!

Odete Costa Semedo | Editoria Opinião | 01/03/2016

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Diz o velho adágio guineense: Tadjan kasaku suma di mangafulanu! Ombras ka djusta, si i ka perta i na iogoli! Talha-me um casaco igual ao do fulano! Os ombros não têm a mesma medida, se não ficar apertado, largo há de estar!

Um grande vício que me tem acompanhado, desde que me conheço por gente, veio bater-me à porta, hoje, como já vem sendo hábito. E vós sois testemunhas de tanta lembrança lembrada.

Sinto-me assaltada, ainda que à mão desarmada, por memórias e passados que se fazem presentes, levando-me a acreditar que o mundo dá voltas. Dá tantas voltas, mas vira e mostra velhos rostos. Rostos de raiva, de contendas mal resolvidas. E mesmo quando perante cenas que parecem novas e/ou insólitas, há sempre nelas um fio do passado. Contudo, não é nada que se aproxime das peripécias do Clube dos Valetes de Copas de Ponson du Terrail, muito menos da artimanha do Napoleão de O triunfo dos porcos de Orwell, apesar da verosimilhança.

Estou a falar de pessoas, de homens e mulheres, supostamente normais, sem qualquer demência. E lembro-me de tudo ter acontecido num dia normal: não era dia festivo ou de manifestação que implicasse o uso de máscaras, e nem se tratava de uma jornada de vale tudo. Acreditem que não era nada disso. Estávamos – ou será que não? – 

num dia igual a outros dias, com a única diferença de nesse dia o tempo estar nublado. Parecia que, de um momento para outro, iria chover. E era janeiro, época seca.

Apesar de janeiro ser janeiro em qualquer parte do mundo, não se vá pedir que se talhe um casaco igual ao de um fulano do Norte, pois se no Norte neva, aqui no Sul o sol é de lascar lenha! Experimente o guineense usar um daqueles blazers de golas felpudas, calçar luvas de pelica e botas de cano alto, só porque assim anda o seu amigo do Norte!

Acontece que, num país do Norte, gente de mandjuandadi de astúcia fez a sua corrida. Uma mandjuandadi chegou primeiro, mas perdeu o bordão da estafeta. Na hora de passar testemunho, onde está a vara?

Os últimos a chegar juntaram-se a outros da mesma cor e somaram mais pontos. E o júri, por força da lei, entregou o troféu a esses corredores. Assim, os atletas que pareciam ter perdido passaram a vence-dores, pois tinham mais desportistas, e a mandjuandadi que podia ter ganho, por ter chegado primeiro, perdeu o troféu que estava em disputa. Foram lágrimas no canto do olho, mas a Carta ditou as regras do jogo.

A notícia correu o mundo, as atenções viraram-se para aquela terra do Norte.

E como não há guerras novas, aqui, por este chão de Okinka Pampa, alguém lembrou-se de mandar talhar fatos iguais aos dos atletas do Norte, e não se tratava de quaisquer casacos, eram sobre-tudo e sobre-todos, peludos por dentro e amarfalhados por fora. Os terminais das golas dos sobre-todos deviam ter, como enfeite, as cabeças das vítimas a cair. Uma ideia macabra! Chega a lembrar Mobutu no auge do seu poder, e era um homem do Sul como os donos dos sobre-todos.

Por mais triste que isto pareça, é real! Aqui no Sul, há quem queira talhar um casaco igual ao do fulano. A ideia virou plano, do plano passou-se a ação, e os casacos foram talhados, forrados, alinhavados, costurados. As cabeças das vítimas foram postas a secar, porque os corredores do Sul não dominam a técnica de embalsamar indivíduos vivos. Refiro-me a quadrúpedes, porém, somos todos indivíduos na natureza!

Não é que as cabeças não secaram? Mesmo assim, os casacos foram levados para acabamento; ali, alguém lembrou-se de que os futuros usuários dos casacos deviam provar os sobre-todos. E lá foram! As mangas ficaram compridas demais e apertadas, os ombros larguíssimos, as cabeças não secas começaram a tresandar um cheiro forte que a todos incomodava, e até os que estavam num sono amnésico profundo acordaram, no Sul e no Norte!

Sobre-todos? Não!

Casacos? À medida!

Odete Costa Semedo

[Texto publicado na edição N.º 105 da revista África21]

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