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Requiem para um homem solidário

Luís Cardoso | Editoria Opinião | 01/04/2016

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Estava uma tarde chuvosa quando me fui despedir do arquiteto Nuno Teotónio Pereira à Igreja Sagrado Coração de Jesus, lá para os lados do Marquês de Pombal, um projeto em que foi coautor com o arquiteto Nuno Portas. Estavam lá muitas caras conhecidas, velhos combatentes contra o regime colonial fascista, alguns deles enclausurados na prisão de Caxias. Guardo na minha memória as imagens que vi na RTP da saída do arquiteto da prisão de Caxias, um dia depois da Revolução dos Cravos.  

Lembro-me que o arquiteto, conjuntamente com a sua filha Luísa Teotónio Pereira, era das poucas pessoas que em momento algum desistiram de Timor, mesmo quando nos corredores do poder o caso era tido como perdido. Mantinham a esperança que um dia o país haveria de se libertar do jugo dos militares indonésios, dando lugar a um país em que todos beneficiariam das riquezas naturais do território. Desde o tempo colonial que se sabia da existência de petróleo em Timor. Uma das razões da invasão do território pelos indonésios. 

E foi a pensar nos meus companheiros timorenses que compartilharam comigo muitas das reuniões com o CIDAC, a organização que nos albergou durante os tempos da luta pela independência de Timor, que fiz o meu caminho debaixo da chuva miudinha. Lembrei-me dos seus rostos, do que diziam, do que falavam, dos seus sonhos e das suas tristezas. Mesmo junto da Praça dos Restauradores deparei com um sem-abrigo cujo rosto me era familiar. A minha memória levou-me rapidamente a identificá-lo. Era o Mau-Mali. Um dos primeiros refugiados timorenses que tinham chegado a Portugal. Vivia lá para os lados de Odivelas num dos prédios que a Segurança Social alugou a particulares para os instalar. Dei-lhe aulas de alfabetização que lhe permitiram falar português e arranjar um emprego na construção civil. 

Um dia sem explicar nada, Mau Mali abandonou tudo, o prédio onde morava com outros amigos, o emprego, o subsídio da segurança social, a causa e os companheiros da luta e foi-se instalar na rua vendendo artesanato. Do sítio onde estava abrigado, pediu-me cigarro, imitando o gesto de um fumador. Aproximei-me mais e disse-lhe que não fumava mas que podia muito bem pagar-lhe umas sandes e um copo de tinto se ele quisesse aceitar a oferta.  

Foi assim que entrámos numa tasca da Baixa Lisboeta que ele parecia conhecer bem. Apresentei-me e falei dos outros amigos que viviam com ele em Odivelas. Os seus olhos brilharam. Deu conta quem eu era. Fez-se luz. Tinhas mais cabelo, não tinhas?, sorriu com a sua observação, ao mesmo tempo que se levantou da cadeira para dar um longo e apertado abraço. Só me largou quando colocou as mãos nos olhos para limpar as lágrimas.  

Perguntei-lhe como foi possível sobreviver no meio da rua durante tanto tempo. Quase três décadas. Com o frio, o vento, a chuva e ao sol. Respondeu-me que não teria sido possível sem a ajuda dos outros sem-abrigo. Que no asfalto também há muita solidariedade. Mais do que eu poderia imaginar. E Timor?, perguntei-lhe. Se ainda tinha a memória de quem ele era em Timor. Nada me respondeu. Voltei a falar-lhe dos tempos em que sonhávamos regressar a Timor depois da independência. Quando a ideologia nos prometia um país livre onde todos teriam as mesmas oportunidades. Foi então que me perguntou, olhos nos olhos, se eu acreditava mesmo nisso. Que aqueles que detinham o poder e o dinheiro iriam distribuir pelos demais tudo aquilo que julgavam merecer pelo facto de terem passado as passas do Algarve. Que o mais natural era enriquecerem e distribuírem as benesses pelos familiares e amigos. 

Falei-lhe que tinha estado no velório do arquiteto Nuno Teotónio Pereira, o pai da Luísa. Ele fingiu que me ouvia, mas a mim pareceu-me que estava a fazer uma grande viagem de volta à sua aldeia, algures nas montanhas de Timor. Despedimo-nos na porta do estabelecimento com um grande abraço. Foi também o abraço que me faltou dar ao arquiteto Nuno Teotónio Pereira por ter estado sempre presente nos momentos em que Timor precisou dele. A última vez que o vi, foi na apresentação do meu livro Requiem para um navegador solitário. Por ele eu escreveria um livro com o título de Requiem para um homem solidário.

Luís Cardoso

[Texto publicado na edição N.º 106 da revista África21]

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