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Carlos Cunha: «É preciso um resgate financeiro»

| Editoria Entrevistas | 01/04/2016

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Pertencente à família política do MPLA, ex-coordenador adjunto da sua organização juvenil, a JMPLA, abandonou a política em 1977 e, em 1990, decidiu dedicar-se à atividade empresarial. Presentemente, é crítico em relação a alguns atos do Governo. Defende um resgate financeiro internacional, para cobertura de três a cinco anos de dificuldades, dando tempo ao processo de diversificação económica, iniciado pelas autoridades, a fim de ultrapassar a crise provocada pela baixa do preço do petróleo.

Acho que deveríamos avançar para um resgate internacional que permitisse um financiamento para estabilizar a economia durante 3 a 5 anos

África21. Angola aderiu plenamente à economia de mercado no início dos anos 90, quinze anos depois da independência. Como vê este processo até agora? A economia de mercado está realmente implantada em Angola?

Carlos Cunha. Penso que não. Temos uma economia de mercado muito baseada em métodos de governação do passado, que assentavam no autoabastecimento. Se sou trabalhador da Cuca [companhia cervejeira angolana], levo mais cerveja para casa; se sou do banco, tenho mais divisas para viajar; se sou do Governo, bato e nunca apanho (estou acima de qualquer suspeita). Não é possível uma economia de mercado sem mais abertura democrática, sem mais responsabilidade social, sem estruturas de justiça mais independentes e mais liberdade de expressão. Se existe a Lei da Probidade Administrativa, não se podem adjudicar obras sem concurso público, tem que haver mais distância entre os players da governação e a coisa pública. Há muita promiscuidade, assim como falta de bom senso, isenção e transparência.

Não há economia de mercado sem empresários, ou seja, sem burguesia. Mas a burguesia era praticamente inexistente quando o país aderiu à economia de mercado. A sua formação, por isso, tem sido estimulada e conduzida pelo Estado. Já se pode fazer uma avaliação geral desse processo?

O crescimento empresarial à volta dos detentores do poder foi levado a extremos, tendo-se criado uma elite endinheirada, assente nos esquemas e no enriquecimento fácil, mas pouco conhecedora da ciência moderna da gestão, quando o desejável seria a criação de riqueza e não unicamente de indivíduos ricos. Angola criou ricos, mas não criou riqueza. Rico é aquele que tem dinheiro e o consome. A riqueza baseia-se na capacidade empreendedora, empregadora, de pagar impostos, criar oportunidades a terceiros, demonstrar responsabilidade social, criar, criar, todos os dias e cada vez mais, arriscando o que se ganha.

Até aos anos 90, o país estava dividido em dois. Desde a adoção do multipartidarismo e, sobretudo, o fim da guerra pós-eleitoral, em 2002, a sociedade iniciou um processo de reconciliação interna. A reconciliação também já chegou à economia?

Houve um grande esforço para tentar envolver irmãos desavindos também na economia, mas, em termos de desenvolvimento empresarial, os resultados foram muito reduzidos. Uma coisa é dar apoio económico e social a quem quer descansar da guerra, outra é fomentar o empresariado. Assim, deu-se habitação a quem não a tinha, bem como viaturas de luxo, para que os beneficiários se sentissem importantes e socialmente integrados. Mas, de um modo geral, as pessoas limitaram-se a consumir, sem investir seriamente em nada. Esta é uma realidade típica em África, onde rico é quem gasta muito, tem muitas mulheres, viaja muito e faz muitas festas e não quem ganha muito investindo e criando riqueza para a sua comunidade. 

Uma acusação frequente é que o capital privado, em Angola, está concentrado num núcleo muito restrito da população, mas outras opiniões realçam que o nível de concentração de riqueza no país é dos menores da África Austral. Qual é a sua opinião?

Partilho da mesma opinião. Grande parte das nossas grandes empresas foram alicerçadas em capitais públicos ou da Sonangol e agem, nalguns casos, em ambiente de exclusividade injustificável e outras com privilégios que as colocam perante a concorrência, como vencedoras à partida.

O que pensa da relação entre política e negócios em Angola?

Entendo que quem faz política não devia fazer negócios. Aliás, foi o que fiz na minha vida. Quem já governou e está bem de vida (independentemente da forma como enriqueceu) deveria sair do Governo e ir para a sua vida privada, caminhar como todos nós e até com mais vantagens, porque é rico e tem mais ligações. Acho que ficar rico no Governo e continuar nele e sempre a enriquecer, além de um ato de miopia política, é uma demonstração de fragilidade empresarial.

Como aprecia, de um modo geral, o ambiente de negócios em Angola? O que fazer para melhorá-lo?

É imperioso mais transparência, mais respeito pela classe empresarial, menos intromissão do Governo nos negócios, menos corrupção, mais respeito da coisa pública, mais justiça e menos burocratização dos processos.

A corrupção é um problema? Como enfrentá-la?

É um problema transversal a toda a Nação, dos mais graves que enfrentamos. Urge aplicar a lei, pois a lei pode ser dura, mas é para cumprir (dura lex, sede lex). Hoje devemos ser o único país onde ninguém responde por atos lesivos à Nação. Como dizia o malogrado padre César Viana, continua-se a «prender quem rouba a carraça do boi e não quem rouba o boi».

Como vê a atual crise económica e financeira do país?

Estou muito preocupado, mas estou mais inquietado com a nossa crise de ideias e de estratégias, do que com a crise financeira. Estão a inverter-se as causas e os efeitos reais da crise. Num momento como este, tentar tabelar hortofrutícolas de produção nacional (incluindo alface e pimentos), atiçar as inspeções contra os comerciantes, subir os impostos de quem já os paga (apenas 3% das empresas), em vez de aumentar a base tributária, entre outros, constitui falta de bom senso e pouca assertividade.

Conhece o plano do Governo para sair da crise? Qual a sua apreciação acerca do mesmo?

Conheço, mas achei-o pouco realista, porque não consigo vislumbrar de onde sairão os recursos financeiros sem um endividamento de grande dimensão. Temos recursos para explorar e terras férteis, logo, não temos que recear o reembolso deste endividamento, se o mesmo for aplicado com mais transparência e qualidade. Aqui reside o problema. Uma estrada asfaltada tem que durar 20 a 25 anos; se durar três, teremos que voltar a investir nelas, em prejuízo de outras estradas ou de investimentos em outras áreas.

Na sua opinião, quais as medidas-chave que têm de ser tomadas para sair da crise?

Antes de mais nada, vontade política para diversificar efetivamente a economia. Entretanto, acho que deveríamos avançar para um resgate internacional que permitisse um financiamento para estabilizar a economia durante 3 a 5 anos, até que a diversificação económica seja uma realidade ou a crise petrolífera se evapore. Igualmente, acho que os investimentos no exterior, feitos com recursos do Estado angolano ou por empresas e organismos nacionais de grande dimensão, como a Sonangol, Unitel e Fundo Soberano, deveriam ser direcionados para dentro do país, a fim de suprir as necessidades internas e incrementar a nossa economia.

As suas principais atividades empresariais estão ligadas ao campo. O que fazer para dinamizar a produção agropecuária do país?

Falta quase tudo, a começar por estradas, nem principais nem secundárias, que facilitem o escoamento dos produtos. Não existe crédito comercial para a agropecuária e os créditos de fomento, como os do BDA [Banco de Desenvolvimento Angolano], necessitam de ser regulares e mais monitorizados para serem capazes de superar os constrangimentos dos processos produtivos. Não existem laboratórios, nem de análises de solos nem de análises clínicas veterinárias, a funcionar em condições. A obtenção de vistos para técnicos especialistas do setor é um bico de obra. Os recursos cambiais para a logística agropecuária (pesticidas, fertilizantes e peças para as máquinas) não são considerados prioritários. É isto o que o Estado tem de fazer.

Também é um expert em turismo, que alguém disse poder vir a ser o novo «petróleo» de Angola. Concorda? O que será preciso para que isso não seja um mero slogan?

Liberalizar os vistos de turismo. O resto virá por arrasto. Angola já tem hoje uma rede hoteleira que lhe permitiria hospedar mais de um milhão de turistas por ano, se não fôssemos tão exigentes a emitir vistos de turismo. Vemos perigo em tudo e as coisas realmente perigosas brincamos com elas. 

Está otimista em relação ao futuro do país?

Nem por isso. Gostaria de ver realizados pelo menos uma pequena parte dos nossos sonhos. Melhor saúde, melhor educação, melhor alimentação das camadas mais vulneráveis e mais respeito pelos construtores desta terra, entre eles os empresários. Os autênticos. É que «somos todos empresários», mas não somos todos iguais, porque «alguns são mais iguais do que os outros».

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Perfil

Carlos Cunha, empresário, de 60 anos de idade, é natural de Calulo, Libolo, província do Kuanza Sul. Casado, é pai de dois filhos e tem cinco netos. Foi coordenador adjunto da JMPLA, a organização juvenil do MPLA. Em 1977, abandonou a política, tendo feito um percurso pela função pública até 1984, quando foi para Portugal, a fim de se fazer a formação superior em Gestão. Já licenciado, regressou ao país em 1989, onde exerceu as funções de assessor do ministro do Comércio e Indústria durante um ano. Em 1990, decidiu dedicar-se à atividade empresarial. Mais recentemente, foi consultor do ministro do Turismo e Hotelaria (2009-2010).

Alberto Sampaio

[Texto publicado na edição N.º 106 da revista África21]

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