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Sociedade

Seca: Cerca de 40 milhões podem passar fome no leste e no sul de África

| Editoria Sociedade | 02/05/2016

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Cerca de 40 milhões de pessoas enfrentam risco de fome nas regiões leste e sul de África devido à grave seca em consequência do fenómeno meteorológico El Niño.

«Já existia uma seca antes do El Niño e ele agravou a situação. Morreu muito gado, perderam-se várias colheitas»
(DR)

A falta de chuva é sentida desde 2014 e têm-se perdido várias colheitas. As reservas alimentares vão-se esgotando e o preço dos alimentos aumenta, agravando a situação.

Segundo a Rede de Sistemas de Alerta Precoce contra a Fome, criada pela agência de desenvolvimento internacional norte-americana, a USAID, as chuvas abaixo da média deverão continuar na região e a crise alimentar poderá prolongar-se até ao próximo ano.

No leste de África, o país mais afetado é a Etiópia, que enfrenta «a pior seca em 50 anos», disse à agência Lusa Challiss McDonough, porta-voz do Programa Alimentar Mundial (PAM) para a África Oriental.

«Já existia uma seca antes do El Niño e ele agravou a situação. Morreu muito gado, perderam-se várias colheitas, por isso existem atualmente na Etiópia mais de 10 milhões de pessoas a precisarem de ajuda de emergência ao nível da alimentação para sobreviverem. As taxas de desnutrição aumentaram nitidamente no último trimestre (…). A situação é extremamente séria», referiu Challiss McDonough.

Segundo a porta-voz do PAM, o governo da Somália «tem sido muito pró-ativo e tem liderado e organizado a resposta» à crise, mas «precisa de ajuda da comunidade internacional para dar resposta às necessidades básicas das pessoas, e infelizmente a ajuda da comunidade internacional tem sido insuficiente».

O PAM está a trabalhar com o governo da somália para apoiar 7,6 milhões de pessoas, dos 10 milhões que precisam de ajuda alimentar, sendo os restantes ajudados por um grupo de várias organizações não-governamentais, adiantou.

Challiss McDonough disse ser «também preocupante» a situação devido à seca no norte da Somália (áreas de Puntlândia e Somalilândia), que considerou «semelhante à da Etiópia». O número de pessoas afetadas é menor, porque a região não tem muita população, «mas o nível de necessidade é elevado», disse. Cerca de 1,7 milhões de pessoas naquelas zonas precisam de algum tipo de assistência humanitária, de acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA).

A seca teve igualmente «impacto significativo» no Sudão do Sul, cuja guerra civil agravou a situação, disse ainda Challiss McDonough.

No caso da África Austral, o último relatório do PAM, divulgado a 26 de abril, estima em 32 milhões o número de pessoas em risco de fome, «largamente devido à seca, que teve como consequência colheitas fracas no ano passado».

O estado de emergência foi declarado no Lesoto, no Malawi, na Suazilândia e no Zimbabwe, assim como em sete das nove províncias da África do Sul, enquanto Moçambique declarou um alerta vermelho, o nível mais alto de preparação de emergência nacional, nas províncias centrais e do sul. Além disto, o PAM, a maior agência humanitária do mundo, indicou que tem apenas 13% do orçamento necessário para dar resposta às necessidades na região da África Austral entre abril deste ano e março de 2017 e que precisa de mais 677 milhões de dólares.

No Lesoto, um dos países mais afetados na região, 80% dos agricultores não esperam ter colheitas em maio/junho e mais de 500 mil pessoas correm risco de fome, segundo o PAM, que indica que a situação deverá piorar na segunda metade do ano até 2017.

Em relação ao Malawi, a agência da ONU revelou que o número dos que recorreram aos estabelecimentos de saúde devido a «desnutrição aguda moderada» quadruplicou desde janeiro. O PAM presta assistência a 2,4 milhões de pessoas em 24 dos 28 distritos do país.

Na Suazilândia, são 320 mil as pessoas que precisam de assistência alimentar urgente, enquanto no Zimbabwe 2,8 milhões de pessoas – mais de um quarto da população rural – correm risco de fome, e «o número deve aumentar exponencialmente nos próximos 12 meses».

Em Moçambique, foram contabilizados 1,5 milhões de pessoas com insegurança alimentar aguda e a precisarem de ajuda humanitária nas províncias centrais (Zambézia, Manica, Sofala e Tete) e do sul (Gaza, Inhambane e Maputo).

O relatório do PAM indica ainda que são poucos os lares com reservas de cereais e que o preço dos alimentos de primeira necessidade nos mercados aumentou quase 100% em relação ao mesmo período do ano passado.

No caso da África do Sul, trata-se da pior seca em 30 anos e milhões podem ser afetados. Segundo o 'site' News24, a deputada da Aliança Democrática (o maior partido da oposição) Annette Steyn considerou que o pleno efeito da seca poderá ser visto no final de julho, princípio de agosto.

«Quase um milhão de crianças precisam de tratamento devido a desnutrição aguda grave na África Oriental e Austral. Dois anos de chuva irregular e a seca combinaram-se com um dos mais fortes casos do El Niño em 50 anos para destruir as vidas das crianças mais vulneráveis», alertou em fevereiro a diretora regional para a África Oriental e Austral do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Leila Gharagozloo-Pakkala considerou que «esta é uma situação sem precedentes" e que o custo para as crianças "será sentido por muitos anos».

Redação com Agência

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