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Retratos e faces

Odete Costa Semedo | Editoria Opinião | 03/05/2016

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Antes da crónica de hoje, passearei o meu sentido por outras bandas, pois deixar o sentido vaguear não faz mal a ninguém; pelo contrário, abre o espírito e mostra as cores da memória.

Eis-me em Bissau, cidade literária, ainda que por apenas uns dias! Entre uma antologia de poemas, romances e cartas, vi-me com o Memórias Somânticas nas mãos, o último romance de Abdulai Sila. Um revisitar das faces da luta de libertação e dos primórdios da independência. Passados quarenta e três anos, parece que foi ontem que tudo aconteceu.

O livro oferece um retrato de esperança que cresce, toma forma, para se desvanecer já nos dias da independência. A praça e o egoísmo separam camaradas. Os internatos para crianças são extintos, pois dá trabalho gerir centenas de crianças órfãs. As flores passaram a lutar sozinhas e murcharam desamparadas. A desilusão juntou-se à solidão, à falta, à perda de amigos. A loucura surge numa guerra sem tréguas com a magia da narração. Um retrato que quase mina a fronteira entre o real e a ficção, tal é a parecença.

Deixei os meus sentidos vaguearem um pouco mais, e fui dar à obra Cartas de Amílcar Cabral a Maria Helena. Foi numa tarde de março que me chegou às mãos A outra face do homem. Entre curiosidade e ansiedade fui lendo as cartas, mas confesso que no início foi difícil ‘aceitar’ aquele Amílcar que se me dava a conhecer pelas letras de um apaixonado, apesar de toda a responsabilidade que sobressaía em cada carta.

E para quem ‘conheceu’ e ‘conviveu’ com Cabral, homem político, a partir da sua obra, dos discursos e testemunhos diversos, não é tarefa fácil ter a equidistância e subjectividade que se requer na leitura de qualquer obra. Há humor, há descontração expressos nas missivas e o estudante vai emprestando espaço ao engenheiro, ao líder que idealizou uma luta de libertação nacional, tendo concebido, ainda, a unidade entre dois países e povos com características e especificidades diversas. Compreenda-se a dificuldade do deslocamento!

As cartas íntimas deste homem, os seus devaneios poéticos, vão esboçando a geografia da vida de Amílcar, até aqui segredos bem guardados, feitos de cumplicidade, paixão, amor, juras e desconfianças sobre o advir.

As cartas são quase diárias, os assuntos diversos. Só no mês de agosto de 1948 Amílcar escreveu quinze cartas a Helena. O pano de fundo é a vida do casal, a preparação para uma vida a dois, mas com atenção às famílias e aos outros.

Gostei das epístolas, sobretudo, porque senti que me desafiavam, enquanto alguém que já havia colocado Cabral numa dimensão especial. E surpreendeu-me o facto de ter em mãos algo destinado a alguém e apenas àquela pessoa: a amada! Senti que o prazer da leitura destas cartas está, precisamente, na curiosidade que desperta e na interpelação a que me senti sujeita. Um desafio à interação com cada carta, com cada imagem que se consegue criar pela leitura. Este facto fez com que sentisse uma dinâmica extraordinária no processo de leitura, podendo assistir ao crescimento do jovem estudante responsável, apaixonado, que foi se construindo como homem, esposo, pai e líder político.

Senti-me envolvida pela cumplicidade que emana das cartas. É como se tivesse roubado o diário do irmão mais velho, entrado na sua intimidade e descoberto os seus segredos. Afinal, estamos diante de uma espécie de diário de uma vida, aliás, de duas vidas: a de Amílcar e de Maria Helena!

Curioso o jogo a que a leitura das cartas me conduziu, pois, se, por um lado, tive acesso às missivas de Amílcar, faltaram-me as de Helena para ter as duas faces da moeda. O jogo levou-me a imaginar as respostas de Helena, as juras de amor e as suas inquietações.

E os meus sentidos, que não me largam, reinventaram tardes literárias em Catió e porque não em Bafatá, Cacheu? Afinal Guiné não é apenas Bissau!

Odete Costa Semedo

[Texto publicado na edição N.º 107 da revista África21]

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