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Opinião

O rabo do lagarto

Pepetela | Editoria Opinião | 03/05/2016

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Na minha infância, havia bué de lagartos em Benguela. Sobretudo nos quintalões abandonados, uma espécie de símbolo da cidade de então. Os quintalões estavam cheios de lagartos e lacraus, felizmente mais dos primeiros. Os lacraus escondiam-se debaixo das pedras e pareciam mais numerosos na época da chuva, rara. Claro, andávamos sempre atentos porque era uma picada dolorosa e muitas vezes fatal. Os lagartos eram pacíficos, todos sabíamos. Se lhes atirávamos pedras ou tentávamos um pontapé, era por pura maldade. Mas rapaz a merecer respeito tinha de matar um lagarto, filosofia de bando. 

O último de que me lembro ter agredido com uma fisga, ficou com o rabo cortado. E isso era um espetáculo para toda a tribo observar e bater palmas. Porque o rabo se punha a mexer com toda a velocidade e a saltar, enquanto o animal se tinha safado há muito para o meio do capim. Ficávamos a ver o rabo a estrebuchar, até se deter de vez. Também nos ensinaram que não era grande perda para o bicho, pois o rabo voltava a crescer, o que causava grande admiração. Aceitávamos, pois se os mais-velhos diziam, alguma razão haveriam de ter. No entanto duvidávamos um pouco. Seria mesmo possível? É como se cortassem o braço de alguém e voltasse a nascer o braço com a respetiva mão na ponta. Uma maravilha de grande feitiçaria! É verdade, diz a ciência, os rabos dos lagartos têm essa capacidade de recuperar, pelo menos em parte.

Lembrei-me desses tempos remotos e das maldades infantis de que faço publicamente contrição, ao ler num jornal que uma nova espécie de lagarto foi encontrada em 2013 no deserto do Namibe e só agora dada a conhecer ao público. A expedição era multinacional, pois reunia pesquisadores dos Estados Unidos, de Portugal e de Angola (através do Instituto da Biodiversidade e Conservação da Natureza). O dito lagarto, de que se colheram sete exemplares, recebeu o nome de Cordylus Namakuiyos. A última palavra é Helelo, língua da região, e quer dizer espinho. Lagartos espinhosos, portanto. As escamas têm picos duríssimos que afastam os predadores. Por isso resistiram durante milénios a todo o tipo de bicho que os gostaria de engolir. Parecidos com eles, mas de outra espécie, foram encontrados dois exemplares em 2009, na mesma região, por investigadores sul-africanos. E o mais antigo, de uma outra espécie de lagartos espinhosos, tinha sido encontrado em 1895, levado para Portugal, e aí estorricado no incêndio da Faculdade de Ciências de Lisboa, em 1978. Só o queimado foi descoberta do tempo colonial. O que me faz reforçar a ideia de que o colonialismo aqui só procurou as diferentes árvores de dinheiro, pouco mais lhe interessava. Nem um lagarto tão especial, único no mundo, conseguiram encontrar? Em quatro séculos? Ó sagrada ignorância! Ou eterna cegueira.

Fico muito satisfeito pelo contributo do país ao conhecimento universal e, se fosse em outros tempos, correria para o Namibe, batendo a pé o deserto e revirando cada pedra, a ver se encontrava algum. Não para o comer, por muito deliciosos que possam parecer às águias ou suricatas. Nem sequer para lhe cortar o rabo e ficar a ver se também saltava e se revolvia com seus espinhos até ficar parado para sempre. E o lagarto conseguiria recuperar um rabo, mesmo menos espinhoso? Esperarei com paciência até me darem notícia de que tal experiência foi feita e que o Cordylus Namakuiyos mantém a tradição dos lagartos. Não venham com lições de moral ecológica. Saber dessa capacidade do bichinho espinhoso também é importante, por isso a experiência deve ser feita. 

Pepetela

[Texto publicado na edição N.º 107 da revista África21]

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