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A maka dos burkinis

João Melo | Editoria Opinião | 15/09/2016

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Seria para sorrir, com alguma bonomia, se não evidenciasse um terrível sintoma, que ninguém deve ignorar: o risco de implantação do neofascismo, levando a uma guerra de todos contra todos. O que é, ao mesmo tempo, paradoxal e particularmente inquietante, é que o neofascismo vem abrindo caminho em nome de conceitos generosos criados pela Revolução Francesa. Coincidindo com a era da «comunicação instantânea», tais conceitos têm sido difundidos nas últimas décadas, em especial depois da queda do Muro de Berlim, de maneira acelerada, mas cada vez mais desvirtuada e pervertida. Têm razão os teóricos da pós-modernidade: a realidade atual, em todas e quaisquer das suas dimensões, é um enorme simulacro.   

Eufórico com o fim do comunismo e, principalmente, do mundo bipolar da Guerra Fria – facto que chegou a confundir com o fim da História –, o Ocidente desencadeou, à escala global, uma estratégia insensata: impor a democracia e a liberdade à força da bala, dos canhões e dos drones. O atentado terrorista contra as Torres Gémeas, que poderia ter funcionado como alerta de quão perigoso era esse caminho, foi utilizado, pelo contrário, como pretexto para acentuá-lo ainda mais (daí as várias teorias da conspiração a respeito do 11 de setembro). Está mais do que provado, por exemplo, que a invasão do Iraque ordenada por George W. Bush não tinha a menor relação direta com a destruição das Torres Gémeas. O facto, entretanto, é que a geopolítica mundial mudou completamente desde esse trágico episódio.

A maka dos burkinis nas praias francesas é mais uma demonstração dos tempos confusos e problemáticos que vivemos, na sequência de tais acontecimentos. Como foi amplamente explicado pela mídia internacional, o «burkini» é uma peça de vestuário que combina a burka com uma túnica e calças femininas e é usado pelas mulheres islâmicas para irem à praia; o rosto, note-se, não é ocultado. A sua existência ganhou foros de «acontecimento» mundial (aumentando também as suas vendas, mostrando, como se isso ainda fosse necessário, como o capitalismo é voraz) quando os prefeitos de várias cidades francesas, a começar por Nice, proibiram o seu uso nas respetivas praias.  

Para usar uma saborosa expressão brasileira, a quantidade de patetices ditas e escritas sobre os burkinis «não cabe no gibi» (livrinho de estórias em quadrinhos). Seja como for, é difícil permanecer indiferente quando alguns tentam «racionalizar» essas patetices. É o caso do historiador português João Pedro Marques, que, em artigo publicado a 23 de agosto deste ano no Diário de Notícias, argumentou que as medidas das autoridades municipais francesas contra o burkini «têm a ver com o receio de confrontos». Segundo ele, certos símbolos, incluindo peças de roupa, são, no atual clima vivido em França, «uma ameaça potencial para a ordem pública». A similitude entre esse argumento e a opinião do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy de que «o uso do burkini é uma provocação» é mais do que óbvia: é escancarada. 

E o que dizer dos argumentos segundo os quais o burkini é uma forma de «reprimir» o corpo feminino? De acordo com essa lógica, portanto, o corpo da mulher, para ser livre, tem de estar desnudo. Se não é uma aberração, parece. Sabendo-se que as religiões cristãs sempre tiveram (e continuam a ter) uma série de restrições ao modo como as mulheres se vestem e apresentam em geral, essa «acusação» só pode vir de algum «fundamentalista secular».

O que os autores desse tipo de raciocínios não se dão conta é que os mesmos dão razão, afinal, às autoridades da maioria dos países islâmicos, sobretudo árabes (não é a mesma coisa), que obrigam as mulheres, incluindo as estrangeiras, a vestirem-se de determinada maneira nos seus países. Ora, não faz o Ocidente gala da sua pretensa «superioridade moral»? Como sê-lo, imitando e reproduzindo as práticas de sociedades que demoram e/ou resistem a abrir-se aos valores humanistas que devem ser partilhados por todos os seres humanos?

Por falar em valores humanistas: o direito de cada um se vestir livremente, salvaguardados os critérios adequados a cada situação (ninguém vai a uma receção de fato de banho, seja ele um bikini ou um burkini), é um deles. O argumento da segurança é outra patetice: que se saiba, nenhum terrorista foi atacar os seus alvos vestido como um islamita «tradicional». 

 

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