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Carmen Pereira, uma vida feita de lutas!

Odete Costa Semedo | Editoria Opinião | 15/09/2016

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Hoje, um pouco mais conformada com o desaparecimento físico da Tia Carmen, eis-me no chão nosso de todos os tempos, onde os sentidos despertam quando colmos e chicotes ameaçam. E hoje despertaram em palavras vivas, abraçando mais uma lembrança, aquela, já vossa conhecida memória, que não me abandona.

Hoje, deixo-me ser, deixo-me estender os braços até onde a minha vista não alcança e os meus pés firmam sem chão; grito em queixume, para que deixem a minha voz ser fala, palavra, dito e poder de contar mais uma lembrança. Memória alimentada de curiosidades que vivi, tem muitos anos! Curiosidade sobre aquela gente que veio do mato e que, afinal, trazia ensinamentos de firmeza e de patriotismo, naqueles verdes anos da independência.

Deixo o meu olhar percorrer esses anos e lembrar-me de que os combatentes traziam com eles a esperança duma vida melhor; o hábito das grandes reuniões, os comícios; as reuniões nos bairros, nas sedes do partido libertador, as críticas e autocríticas durante esses encontros; os trabalhos voluntários de limpeza às ruas; o trabalho produtivo nas escolas, a formação militante, os livros de teses revolucionárias e mesmo a leitura obrigatória de A vida verdadeira de Domingos Xavier. E mais, e muito mais ações que acenderam em cada cidadão a chama de militância, de cada um querer ser um simples africano disposto a dar o melhor de si em favor do programa maior.

Foi nessa altura que conheci a camarada Carmen Pereira, a mulher que não teve medo dos tugas no mato; a filha de nhu Dutur Armando, advogado, aquela que trocou a praça pelo mato. E conheci-a no dia do grande comício, no campo de rádio, um campo desportivo que fica(va) entre o antigo lar masculino, as instalações do antigo PFA e o Comissariado da Educação.

O silêncio do público assistente emprestara uma grande imponência à voz da Tia Carmen, com mensagens dirigidas à população e, em especial, à juventude. Era no tempo das chuvas! No decorrer da intervenção da Tia Carmen, começou a chuviscar, uma chuva miudinha que nos borrifava. Cada um começou a procurar abrigo junto à cantina, onde laborava San Martinho, marido da professora La Liz. Outros foram abrigar-se num dos pavilhões, extensão do liceu. Ali, a Tia Carmen, vendo aquele tumulto, pegou no megafone e, dirigindo-se a todos, disse (não me esqueço e, ainda hoje, ouço aquela voz determinada): É este chuvisco que vai acabar com o nosso comício? Esta chuva miúda tem força de acabar com esta reunião, porque não querem molhar-se? Não, jovens! Já imaginaram se, no mato, cada vez que chovesse, fugíssemos todos para as barracas e deixássemos a Frente de combate? Já imaginaram se tivéssemos desistido a cada bombardeamento? Será que, se não tivéssemos sacrificado as nossas vidas, hoje estaríamos aqui? Não, camaradas!

De repente, com a chuva a intensificar-se, todos começaram a voltar para o centro do campo, não sem que alguns tivessem resmungado um Ora, então vamos nos molhar de propósito?

Anos mais tarde, encontro a mesma mulher, já mais velha, com os olhos mais tristes que brilhantes, na mesma luta, desta feita não para mobilizar a juventude, mas numa dura batalha contra intrigas palacianas e, sobretudo, na luta pela sobrevivência.

As chuvas foram passando, o corpo da Tia Carmen começara a reclamar por cuidados médicos; os joelhos e as pernas já não lhe respondiam aos comandos, a vista da já mulher grande encurtando-se. Era necessário apoio de um departamento do Estado, para uma intervenção cirúrgica no exterior.

Conseguiu uns parcos vinténs, que incluíam tudo: passagem, estadia e medicamentos. Sabem o que esses vinténs valeram à Tia Carmen? Uma intimação para responder no público ministério guineense, para justificar o valor recebido.

A nossa heroína viva, como era tratada por muitos, sentiu-se ultrajada, mas não perdeu a postura. Lamentou apenas! Os seus olhos ficaram mais tristes ainda! Porém, a nossa mulher grande continuara a construir pontes, a fazer das margens lugares onde a liberdade engravida vozes, palavras e vezes, não para parir prôjeitos, mas dar à luz Projetos de vida!

Que a terra lhe seja leve, Tia!

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