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Lisboa, tuc tuc e versos

José Carlos de Vasconcelos | Editoria Opinião | 12/10/2016

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Alexandre O’Neill foi um dos grandes poetas de Lisboa (e, claro, portugueses). Não só ou não tanto por em Lisboa ter nascido, vivido e morrido – fez a 21 de agosto 30 anos, com 61 apenas –, mas pelo que de Lisboa há de vivo em tantos poemas seus. E daqueles em que explicitamente aparece há dois mais conhecidos. Os que começam com estes versos: «E de novo, Lisboa, te remancho», e «Daqui, desta Lisboa compassiva». Lembrei-me sobretudo deste quando há uns dias tive de ir à Baixa lisboeta, à Fundação José Saramago, participar num debate, às três da tarde. 

De meu natural tendendo para o atrasado, não por propósito mas por agenda preenchida ou por descuido, desta vez impus-me o chegar cedo. E para isso, indo de carro, apesar de ter de percorrer só uns 5 km, que em princípio se fazem nuns 12/15 minutos, dado a cidade estar cheia de obras naquela zona saí com uma hora de antecedência. Mas qual quê, só ao fim de uma hora e meia cheguei ao destino, quando aos 30 minutos estava a 200 metros dele. Isto é: com todos os buracos, cortes, obstáculos, desvios, e consequentes engarrafamentos monumentais, gastei uma hora a chegar a essa «meta» que estava tão perto. 

Uma hora a praguejar, por dentro e para fora, a tentar ligar para dizer que chegaria muito tarde, ou talvez nem chegasse, não esperassem por mim. Quando, enfim, cheguei próximo, onde em teoria poderia haver lugar para estacionar, ou abandonar, o carro, claro que não havia. Havia, sim, gente que como eu desesperadamente o procurava, caída naquela armadilha, sucumbindo naquele atoleiro… Mas quando já estava a desistir, a ir-me embora, deu-se uma espécie de milagre sem ser de Fátima, não posso agora contar, e alcancei, ofegante, a Fundação, protestando junto à minha querida amiga Pilar del Rio (Saramago). 

Por esta altura, alguns leitores pensarão que em definitivo me passei. Começar por falar do O’Neill, grande poeta de Lisboa, e depois mergulhar no caos das obras e do trânsito… Mas há uma explicação. Nessa hora e meia, no meio de todas as confusões, entre o pó, o calor, o chinfrim, à torreira do sol, com uns incríveis 32 graus, a Baixa transbordava de turistas. Enchiam tudo. E lotavam os infindáveis tuc(s) tuc(s) que no engarrafadíssimo  trânsito se enfiavam em qualquer buraco e faziam todas as tropelias para percorrer os seus improváveis percursos. E quando, finda a sessão, para tentar escapar àquele inferno meti por não sei onde e fui dar, sem saber como, a Santa Clara e ao Panteão, os tuc(s) tuc(s) continuavam por todo o lado.

E então aqui volta o O’Neill, que nas duas primeiras quadras do referido segundo poema escreveu, como só ele: «Daqui, desta Lisboa compassiva,/ Nápoles por Suíços habitada,/ onde a tristeza vil, e apagada,/ se disfarça de gente mais ativa;// Daqui, deste pregão de voz antiga,/ deste traquejo feroz de motoreta/ ou do outro de gente mais seleta/ que roda a quatro a nalga e a barriga». É que pensei em como está diferente esta Lisboa e como iria o Alexandre resolver a rima, o poema, com o sexto verso, se, como se imporia, mudasse o «deste traquejo feroz de motoreta», para «deste traquejo feroz de tuc tuc». Que até é bonito e mantém as dez sílabas…

Nessa tormentosa hora e meia, para me apaziguar e para meu prazer, fui ainda tentando reconstruir, de memória, outros poemas que nos dão outra Lisboa, que permanecerá, espero, intacta sob essa película amarelada, ruidosa e rentável de turistas. E recordei a Lisboa do Eugénio (de Andrade): «Alguém diz com lentidão:/ ‘Lisboa, sabes’…/ Eu sei. É uma rapariga/ descalça e leve,/ um vento súbito e claro/ nos cabelos,/ algumas rugas finas/ a espreitar-lhe os olhos,/ a solidão aberta/ nos lábios e nos dedos,/ descendo degraus/ e degraus/ e degraus até ao rio.// Eu sei. E tu, sabias?». E recordei Sophia: «Aqui e além em Lisboa – quando vamos/ Com pressa ou distraídos pelas ruas/ Ao virar da esquina de súbito avistamos/ Irisado o Tejo:/ Então se tornam/ Leve o nosso corpo e a alma alada».

José carlos Vasconcelos

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