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Blick Bassy: “O futuro está em África!”

| Editoria Entrevistas | 12/10/2016

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Depois de uma carreira musical de sucesso, iniciada nos Camarões e prosseguida em França, Blick Bassy publicou este ano um romance com o título «Le Moabi Cinema», em que trata com humor e leveza os grandes temas da atualidade e os sonhos e frustrações da juventude africana. Polémico, o músico e escritor camaronês critica o Ocidente, as elites africanas, a religião, mas, sobretudo, apela à juventude africana para não se deixar atrair pela ilusão da emigração. Para ele, o futuro dos jovens africanos está no continente, só têm de descobri-lo. A seguir, reproduzimos, com a devida autorização, uma entrevista concedida por Blick Bassy à publicação francesa AFRIQUE MAGAZINE.  

“O futuro esta em Africa. Vejam o que tem, despertem, ajam!

É músico camaronês. Porque escreveu «Moabi Cinema», o seu primeiro romance?

Blick Bassy Queria ir mais longe nos temas abordados. Pensei inclusivamente em fazer um filme, para tocar um público mais vasto. O livro fala da emigração, das miragens do Ocidente, da sua atração ilusória junto dos jovens africanos. O seu problema consiste em pensar que não há nada para fazer nos seus paises, que o «paraíso», o sucesso, moram noutros lugares. Enquanto não conseguem um visto, não sabem o que fazer, vivem numa espécie de desemprego. É-lhes impingido um modelo de sucesso baseado em outro ambiente, outro sistema de sociedade. O facto de ter emigrado ensinou-me como é difícil vingar na Europa. É esta a mensagem que quero fazer passar a traves da ficção. Quero dizer aos jovens: “O futuro esta em Africa. Vejam o que tem, despertem, ajam»! Há que revalorizar a nossa terra, a nossa cultura, e acabar com estes discursos perigosos que idealizam o Ocidente, porque é por isto que milhares de africanos arriscam e perdem a vida todos os anos.

No seu livro, é uma árvore, o moabi, que revela imagens sobre a realidade no Ocidente. Porquê? 

Podia ter escolhido um imbondeiro ou qualquer outra espécie emblemática do continente. Hoje ainda, nas aldeias da etnia bassa, fazem-se cerimónias quando se derrubam estas árvores. São testemunhas sagradas, parecem mudas mas transmitem mensagens. Esta árvore do conhecimento é um símbolo: a verdade esta muitas vezes debaixo dos nossos olhos, mas não a ouvimos, ignoramo-la, vamos busca-la longe….

A árvore é guardada pela tropa, para impedir a população de se aproximar Porquê?

Porque os dirigentes africanos são cúmplices desta tragédia, destas mentiras. Dá-lhes jeito que os jovens partam e abandonem os seus países. Assim podem pilhar as riquezas nacionais sem prestar contas a ninguém. Têm realmente uma responsabilidade neste fenómeno. Como se fazem campanhas de prevenção para o paludismo ou a SIDA, seria preciso explicar do mesmo modo as dificuldades de viver na Europa. Os europeus falam sempre das nossas desgraças, das guerras, da fome, das doenças. Pelo contrário, em Africa idealiza-se a Europa. A dificuldade de obter um visto aumenta ainda mais o desejo de partir: o paraíso é difícil de alcançar. É um cúmulo: os países que nos exigem um visto de entrada são os mesmos que no passado desenharam as fronteiras dos nossos.

No entanto escolheu emigrar. Vive em França desde 2005….

Nos Camarões, infelizmente, não há condições para fazer uma carreira internacional. Como cidadão do mundo, precisava de conhecer outros universos musicais, assim como de partilhar a minha mensagem. Quando era mais novo recusei por três vezes uma bolsa de estudos para a Europa e os Estados Unidos, o sonho de qualquer jovem. Nessa altura o meu pai pensava que eu era louco ou que me tinham enfeitiçado. Fez vir um padre para me exorcizar.

[versão integral via assinatura]

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