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Teresa da Silva Neto: "Ensino superior privado precisa de uma maior parceria com o Governo"

| Editoria Entrevistas | 20/12/2016

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Reitora da Universidade Metodista de Angola desde 2007, membro fundador e presidente da Associação das Instituições do Ensino Superior Privado Angolano (AIESPA) desde 2011, presidiu em finais de outubro na cidade de Benguela ao III Fórum sobre a qualidade do ensino superior em Angola. Teresa da Silva Neto acredita que as instituições do ensino superior privado no país são os maiores parceiros do governo. Quer mais liberdade para as universidades privadas definirem as propinas, mas advoga uma maior parceria com o governo, a criação de instituições de apoio à pesquisa, mais investimentos em investigação científica, maior relação entre empresas e universidade, e a mudança do modelo de estágio praticado em Angola.


ÁFRICA21. Qual o papel do ensino superior privado dentro do sistema de ensino angolano?

Desempenha um papel muito importante e acaba sendo o maior parceiro do governo. As instituições privadas acabam por dar respostas naquela parte em que o Estado não consegue. Grande parte dos atuais estudantes do ensino superior vem das instituições privadas. Com exceção da Universidade Agostinho Neto, que até há pouco tempo era a única universidade pública de Angola, as universidades privadas são mais antigas que as restantes universidades públicas. Com essa experiência que as privadas têm, elas conseguem dar resposta àquilo que o Estado não faz.

Do meu ponto de vista, as universidades privadas estão ligadas à ideia de inclusão social. Nas instituições do ensino privado em Angola, sobretudo as instituições religiosas, mas provavelmente em outras também, prevalece a ideia de apoio social. Os que apostaram no ensino superior como privados fazem-no primeiro para dar apoio a uma parte que o Estado não tinha como cobrir, por falta de infraestruturas, e também por falta de condições de expansão das instituições ao nível do país. Por outro lado, mostram também que dentro do país existem pessoas preocupadas com a formação. Infelizmente, o olhar que se tem sobre esses parceiros do Estado não é esse. 

Mas uma vez que o investimento privado visa o lucro, isso não é uma contradição?

As pessoas que fazem contas ao número de estudantes e às propinas pensam que as instituições ganham muito dinheiro, mas não é bem assim. A AIESPA fez um estudo com a KPMG para saber qual é o custo de cada estudante e de cada professor, e verificamos que os privados acabam, no fundo, perdendo dinheiro. Nós sabemos, por exemplo, que investir num curso na área da saúde ou de engenharia é muito caro. Na minha opinião, é um olhar negativo que não se devia fazer, devia-se, sim, incentivar as pessoas que investem no ensino superior a fazerem cada vez mais melhorias. Acho que também era necessário isentá-las, de alguma forma, na questão dos impostos.

Quais são as áreas de ensino mais oferecidas pelas universidades privadas e as mais procuradas pelos estudantes angolanos?

As instituições privadas são regidas pelo Ministério do Ensino Superior e as suas prioridades têm que ser as prioridades do Governo, respondendo ao plano nacional da formação de quadros. As licenciaturas oferecidas nas instituições de ensino superior privadas são orientadas por esse plano. Existem as Engenharias, Medicina e a área de Ciências Sociais. A procura é maior para os cursos onde há menos matemática. Há poucos estudantes na área de Engenharia e isso hoje é um fenómeno mundial. Os estudantes procuram mais Gestão de Empresas porque pensam que isso facilitará a abertura do seu negócio próprio, deixando um pouco à parte as engenharias. Mas muitas vezes, quando os estudantes se inscrevem nas universidades eles não sabem bem o que querem. Eles vão porque os pais dizem para o fazer. Por isso, é muito frequente nas instituições de ensino encontrar alunos quererem mudar de curso. O aluno quando chega ao terceiro ou ao quarto ano não pode estar a mudar de curso. Eu fico preocupada porque sei que ele investiu, gastou dinheiro e quando muda de curso normalmente não pode aproveitar todas as disciplinas já feitas, então vai ter um retrocesso. Tem de haver mais orientação profissional.

Sabemos que muitos alunos estão a deixar de pagar propinas e mesmo assim fala-se da necessidade de aumento…

Se nós compararmos o valor das propinas cobrado nas instituições de ensino superior em relação aos colégios, ele é muito inferior. Hoje os colégios ganham muito mais do que as instituições de ensino superior. E quando se reclama que a propina é muito alta, penso que é uma injustiça porque não se tem em consideração o investimento que é feito. Os alunos não vão para a sala de aula se não houver ar condicionado. E as instituições de ensino superior, quase todas, para não dizer todas, sobrevivem com geradores. A energia pública não é suficiente. Elas também vivem sem água. A água, na sua maioria, é comprada de caminhões cisternas. Tudo isso tem custos elevados. Nenhum professor quer entrar numa sala de aula quando ele ganha um valor ínfimo. Ele também tem os seus encargos e os seus compromissos. O risco que se corre ao manter as propinas baixas é também o de baixar a qualidade do ensino, por isso, julgo que se devia dar um pouco de mais liberdade para as instituições reajustarem as propinas.

Contudo, alguns representantes das instituições do ensino superior privado falam da necessidade de financiamento por parte do Estado…

Eu penso que é essa dualidade que as instituições têm estado a viver. A questão dos financiamentos das instituições privadas não é tanto pelo dinheiro, não se trata de dar dinheiro. As instituições formam quadros para o país e o Governo podia, por exemplo, assinar protocolos com estas instituições para apetrechar os laboratórios, uma ferramenta que não seria dos donos das instituições, mas é para ser usada pelos estudantes. Outro aspeto seria o Governo incentivar os alunos a estudarem nos cursos que as privadas já começaram a desenvolver e as públicas não, como é o caso da Educação Física. Falta ao Governo olhar para estas instituições com uma visão de parceria. É essa a questão que às vezes se reivindica a nível das instituições privadas, não é para dar dinheiro, é para investir, ver quais são as necessidades e incentivar. Tem que se olhar com a ideia que queremos investir no próprio país. É algo em que se investe para depois o país se orgulhar daquilo que tem.

Como avalia a qualidade do ensino superior nas instituições privadas em Angola?

Há instituições do ensino superior privado que primam pelo rigor e pela qualidade, mas outras não. Portanto, temos também que nos criticar e nos autoavaliarmos. Tem que haver autoavaliação dentro das instituições. Dentro da Universidade Metodista, por exemplo, até 2014 preocupámo-nos em fazer a autoavaliação de todos os nossos planos curriculares. Chamámos peritos estrangeiros para verificarem se aquilo que nós estávamos a lecionar era mesmo o que os alunos precisam. E foi a partir daí, e também em conversa com o INAAREES que percebemos que tínhamos de alterar a grelha de todos os cursos. 

De que modo é afetada a qualidade do ensino no país pela insuficiente formação de professores e a falta de disponibilidade de divisas para contratar estrangeiros?

É claro que ficamos um pouco limitados, mas nem por isso deixamos baixar a qualidade do nosso ensino. Acabamos sobrecarregando os professores que estão nas nossas instituições como efetivos com mais carga horária para que eles possam suprir as necessidades que eram atendidas antes pelos professores estrangeiros. A ideia agora é pegar nos melhores estudantes das nossas instituições para os irmos formando porque não podemos ficar dependentes. Mas eu entendo também que o ensino superior não pode ser feito só com professores nacionais. Nas grandes universidades de todo o mundo professores estrangeiros lecionam ou participam como convidados. A riqueza das instituições do ensino superior no mundo tem tudo a ver com essas contribuições de professores que trazem olhares de vários lugares. Mesmo assim, ainda existem alguns professores estrangeiros que vivem aqui, que já fixaram residência em Angola e continuam a contribuir para o ensino superior.

Qual será o futuro do ensino superior privado em Angola diante da crise atual?

As instituições de ensino formam pessoas para depois poderem ser inseridas no mercado de trabalho e dar soluções a algumas questões. Há coisas que se investiga nas instituições de ensino que depois podem ser vendidas como patente nas empresas. As empresas deviam fazer parcerias com as instituições de ensino e elas «ditarem» quais são as necessidades que têm. É preciso investir na investigação científica, olhando para as necessidades africanas, ou necessidades nacionais, porque há muita coisa que é importada e que podia ser fabricada ou feita aqui.

 A propósito, existe de facto investigação científica nas instituições de ensino superior privadas angolanas?

As públicas fazem e as privadas começam a pensar em fazer. Na Universidade Metodista nós começámos muito recentemente porque entendemos que se quisermos fazer mestrados é claro que temos que fazer pesquisas, mas ainda é muito pouco. O próprio Governo devia pensar em criar fundações de apoio à pesquisa como existe no Brasil. Aqui quando se fala em pesquisa, fala-se nos Ministérios. Quase todos os Ministérios têm institutos. É ali onde se faz alguma pesquisa, mas julgo que devia haver uma fundação de amparo à pesquisa para termos o perfil de professores pesquisadores. Penso que esse perfil é que não está muito bem definido. Ter mesmo pessoas para pensar a ciência, que vivem para pensar a pesquisa como noutros países.

 As universidades privadas estão devidamente apetrechadas para apoiar as pesquisas via internet e bibliotecas, por exemplo?

Hoje se existir alguma instituição de ensino que não invista nas tecnologias de informação, então não está fazendo nada. Porque hoje já não se consegue viver numa instituição de ensino superior sem internet. As TI são ferramentas importantes para professores e alunos. O livro é muito caro e para comprar livros não temos isenção de impostos. Além de bibliotecas temos bancos de dados. Por outro lado, queremos criar parcerias com as nossas universidades e a Biblioteca Nacional, encontrar um mecanismo de empréstimo de livros que o aluno possa usar em nome da universidade e depois devolver. Também incentivamos a organização de feiras livres nas nossas instituições.

Desta forma acabamos por adquirir esses livros para que possamos ter um acervo bibliotecário e também incentivamos os estudantes a comprarem. Mas reconheço que ainda não é o suficiente.

 As universidades privadas já estão a trabalhar em parceria com as comunidades para auxiliar a encontrar soluções para os seus problemas?

Há muitas limitações. A gente sempre reclama que as universidades privadas deviam ter mais liberdade para poder fazer algumas coisas. A solução para isso é investir na investigação científica. Tem que ter o professor investigador para poder fazer ponte com a comunidade porque, se não se fizer isso, aquele que está na sala de aula lecionando, vai ter muito pouco tempo para ir às comunidades. Angola tem muitos recursos, mas para isso ser de facto explorado e estudado é preciso a mão de uma fundação que apoie a pesquisa e não é apenas com o discurso, é mesmo botar a mão na massa.

 E quanto aos estágios, existem estágios remunerados em Angola como existem no Brasil e noutros países?

Essa sempre foi a minha reivindicação. Não concordo que um estagiário vá para o estágio e o pague. Devia ser o inverso. Aqui as instituições pagam para os estudantes fazer estágio. É uma mão de obra que está sendo oferecida, sem desprimor de nada, enviada para dar ou ajudar um serviço e acho que o estagiário é que devia receber pelo serviço como acontece no Brasil. As instituições de ensino, por exemplo, pagam aos hospitais para os estudantes de Medicina fazerem estágio. Eu acho que isso é errado. Devia ser diferente. A justificativa que se dá, ou que se faz, é que ele vem para o estágio, ele gasta material… Mas ele não gasta para ele! Nós temos dificuldade em conseguir estágios porque há instituições que não aceitam pagar, e quando não aceitam pagar esses alunos são discriminados. Aqueles pelos quais as instituições pagam são acolhidos no estágio.

 Perfil

Teresa da Silva Neto nasceu em 1967, em Luanda, no município do Cazenga. Tem 49 anos, é casada, mãe de três filhos, dois homens e uma mulher. É filha de mãe católica natural de Malanje e de pai metodista originário da província do Uíge. Chegou a viver numa área atingida pela guerra. Em Luanda foi da organização dos pioneiros de Angola (OPA) e da JMPLA. Aos 20 anos obteve uma bolsa de estudos da Igreja metodista e foi para o Brasil. «Fui ao Brasil para estudar Teologia e Pedagogia, mas entendi que fui para lá para estudar e acabei investindo em mim mesma. A Igreja metodista abriu-me as portas e eu decidi que o maior investimento que poderia fazer seria investir nos meus estudos», conta-nos a reitora. Assim, depois da licenciatura na Universidade Metodista de São Bernardo, em São Paulo, continuou a estudar, obteve uma bolsa e fez mestrado na área de Ciências da Religião. Entre 2002 e 2007 foi coordenadora da célula do MPLA em Camoinas. Doutorou-se na UNICAMP, em São Paulo, em 2005, na área de História e Filosofia da Educação. Fez também um curso técnico de enfermagem e deu aulas. Durante o doutoramento também lecionou como assistente estagiária, na própria UNICAMP, na área de História da Educação. Voltou para Angola em 2007 e entrou para a Universidade Agostinho Neto, foi professora na faculdade de letras até 2008 na disciplina de Ética Filosófica, Estética Filosófica, Filosofia, Cultura e Religião. Na Universidade Metodista de Angola foi primeiro vice-reitora na área científica e continuou a dar aulas de História do Pensamento Contemporâneo na faculdade de arquitetura. Ao fim de três meses como vice-reitora foi nomeada Reitora. Já publicou diversos livros, alguns dos quais adotados nos cursos universitários.

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