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Helen la Lime, embaixadora dos EUA em Angola: “Angola é uma democracia nova e que está a evoluir”

| Editoria + Angola | 01/02/2017

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A representante diplomática da maior democracia do mundo em Angola nega que o país seja uma “ditadura”, definindo-o como “uma democracia nova e que está a evoluir”. Em entrevista exclusiva à edição de fevereiro da ÁFRICA21, a embaixadora americana em Luanda reconhece também a existência de uma relativa liberdade de imprensa, mas pede mais. E deixa outros recados, como a necessidade de um ambiente previsível, baseado no estado de direito e sem grandes burocracias, para aumentar a cooperação entre Angola e os Estados Unidos.


ÁFRICA 21 A senhora embaixadora está em Angola há dois anos. Que ideia tinha do país quando chegou e que visão tem agora?

HELEN la LIME Angola é um país com orgulho e tradição própria, que está no processo da construção do seu destino. Sempre tive um entendimento de que Angola é uma importante potência regional em África. Depois de dois anos, estou mais convicta do grande potencial que este país tem e do exemplo que dá para o continente. Espero que os Estados Unidos possam oferecer uma contribuição útil neste esforço do povo Angolano.

Comparativamente com as suas missões anteriores, o que é, para si, mais difícil em Angola? E mais fácil?

Nunca trabalhei num país com tanta diversidade de assuntos bilaterais. Como sabe, Angola é um dos três únicos parceiros estratégicos dos Estados Unidos na África Subsariana, a par da Nigéria e da África do Sul. Neste âmbito, temos uma série de diálogos com o governo de Angola, que passam pelas áreas de energia, saúde, comércio, política, segurança regional, direitos humanos, e tráfico de pessoas.

Acho justo dizer que estamos a fazer progressos e que trabalhamos em questões concretas. Por exemplo, abrimos na embaixada os departamentos comercial e agrícola que prestam apoio aos interesses comerciais das empresas americanas, que procuram oportunidades de parceria com congéneres angolanas em diversos sectores. Em parceria com o governo e empresários angolanos, esses departamentos da embaixada colaboram para facilitar contactos entre Angola e as companhias americanas, especialmente as ligadas à agricultura e à electricidade.  Acredito que as tecnologias e equipamentos das empresas americanas podem contribuir para a diversificação e a produtividade da economia Angolana.  E por isso, facilitamos visitas de angolanos aos Estados Unidos. Para maximizar o potencial do sector privado, é importante continuar a trabalhar na melhoria do clima de negócios em Angola.

Noutro domínio, os Estados Unidos continuam a contribuir para o bem-estar dos angolanos através da parceria com o Ministério da Saúde. Por exemplo, em 2016 durante as epidemias simultâneas de malária e de febre amarela, nós doámos de emergência 500,000 mil doses do medicamento Coartem, avaliados em meio milhão de dólares.

Neste período difícil para Angola, também trouxemos medicamentos de segunda linha para tratar casos de malária grave e de kits de testes rápidos de malária, que foram distribuídos a nível nacional pelo Governo de Angola. Relativamente à febre amarela, trouxemos vários especialistas para aumentar a capacidade laboratorial de diagnóstico e ao mesmo tempo, através da Organização Mundial da Saúde, disponibilizamos um milhão de dólares para a aquisição de vacinas contra a doença.

Aqui, gostaria de sublinhar o sacrifício dos enfermeiros, médicos e do Ministro da Saúde de Angola no combate a esses surtos. Foi graça a este esforço conjunto que se evitou um número maior de mortes.

E não ficamos por aqui, os Estados Unidos também são os principais doadores aos esforços de desminagem em Angola. Estou orgulhosa, em particular, por termos conseguido, em 2015, aumentar o nosso financiamento de quatro para dez milhões de dólares. Para o primeiro trimestre de 2017, já comprometemos quatro milhões de dólares neste processo e esperamos aumentar este valor.

Por outro lado, o Governo e os seus parceiros estão a actualizar a base de dados de campos minados e limpos destes engenhos. Este trabalho realça a esperança de atingirmos a meta de uma Angola livre do impacto de minas até 2025. Para mim, isto seria maravilhoso para o processo de diversifição económica.  

Angola é uma democracia ou uma ditadura?

Angola é uma democracia nova e que está a evoluir com todos os desafios que isto acarreta. O meu país tem estado, há mais de trezentos anos, a construir a sua democracia. Por isso, Angola ainda tem um caminho pela frente para atingir uma democracia mais consensual. Os Estados Unidos continuam disponíveis para partilhar com os Angolanos a sua experiência nesta área.

Há liberdade de imprensa em Angola?

Há uma certa liberdade, sim. Poderia haver mais. Estou cá há mais de dois anos e tenho assistido a altos e baixos sobre a liberdade de imprensa. Acho que também é uma área que ainda está em construção em Angola. Devo aplaudir as diversas iniciativas em que alguns órgãos de comunicação social discutem abertamente as políticas macro-económicas e sociais do Governo. Falam livremente sobre a corrupção, bem como promovem o debate contraditório. Esta abertura deveria ser uma realidade em todo o país. Os Estados Unidos têm feito a sua parte para ajudar a melhorar o ambiente da imprensa através da formação de centenas de jornalistas e do intercâmbio entre profissionais de ambos os países.

Gostaria de ver mais abertura, claro. Para mim as discussões abertas e construtivas são importantes numa sociedade pela sua capacidade de construir e para libertar a pressão no sentido de que as pessoas entendam melhor os desafios em curso.

Em 1975, apesar de algumas vozes no Departamento de Estado que defendiam o reconhecimento do governo do MPLA, os Estados Unidos não o fizeram. Durante décadas, e em particular a partir dos anos 80, decidiram apoiar a guerrilha da UNITA, também instrumentalizada pelo apartheid sul-africano. O que ganhou o seu país com isso?

Tudo isto se refere a um período que já faz parte do passado. A história é história. Eu prefiro falar do que estamos a fazer actualmente. Reconheço que estamos num país com uma pluralidade de partidos políticos, com uma sociedade civil vibrante, com um governo eleito democraticamente através de eleições e com um povo que tem aspirações de consolidar a democracia neste país, e sobretudo de elevar a sua prosperidade económica para que a promessa desta terra possa ser usufruída por todos os Angolanos. 

Hoje Angola e os EUA têm uma parceria estratégica. Quais os contornos desse tipo de relação?

Angola é uma das grandes potências em África, sendo um dos três parceiros estratégicos que nós temos no continente. A nossa parceria abrange uma série de diálogos de trabalho. Alguns pilares que sustentam a nossa importante parceria passam pela segurança regional, onde Angola desempenha um papel de liderança através do seu trabalho na Conferência Internacional sobre a Região dos Grandes Lagos. Por outro lado, Angola é uma das três maiores economias de África ondes temos grandes interesses económicos. Na saúde, fazemos investimentos avultados para combater a malária, o VIH/SIDA e a melhorar o sistema nacional de distribuição de medicamentos, com o objectivo de aumentar a esperança de vida dos Angolanos.

E acha que a mesma está a funcionar?

Temos uma relação bastante activa em que se faz muito, embora ainda haja um caminho a percorrer.A iniciativa Power Africa é um projecto no qual vemos oportunidades reais para apoiar o crescimento do sector eléctrico em Angola. Para tal, temos já um consultor a trabalhar com o Ministério da Energia e Águas para apoiar os esforços visando aumentar a produção e a distribuição de energia no país. Por outro lado, as companhias americanas General Electric (GE) e a APR Energy estão presentes na produção de energia e a contribuirem para uma Angola mais iluminada.

A nossa cooperação no sector da saúde está a funcionar bem. Sob nossa iniciativa, tivemos uma parceria com o Governo de Angola para a realização do primeiro Inquérito Oficial de Indicadores Múltiplos e de Saúde para o qual contribuimos com seis (6) milhões de dólares. Deste estudo, há indicações sobre a redução da mortalidade infantil no país, e agora esperamos pelos dados referentes à seroprevalência.

No domínio da luta contra a SIDA, através da Iniciativa Presidencial para o Alívio da SIDA (PEPFAR, sigla em Inglês), fizemos um investimento global que já ultrapassou os USD150.000.000 desde 2005.

A iniciativa envolveu nove centros de saúde em Luanda, que trabalham no diagnóstico, tratamento e aconselhamento da população alvo das áreas geográficas que têm o maior índice de VIH. Com este trabalho, alcançámos cerca de 40% das pessoas a receber tratamento contra o VIH no país.

De igual modo, o financiamento da Iniciativa do Presidente contra a Malária (PMI, sigla em Inglês) apoia Angola para a redução de mortes e a morbidez por malária. Desde 2006, a PMI investe anualmente quase vinte e sete milhões de dólares para os programas de redução da mortalidade em 1/3 e de diminução de doentes por malária em Angola na ordem dos 40% em seis províncias.

Em 2016, Angola foi declarada “livre da pólio” depois de cumprir cinco anos sem registar um único caso. Este feito é fruto de 15 anos da nossa colaboração. Os Estados Unidos apoiaram a logística e a formação de 3200 voluntários comunitários para conduzir a vigilância e a mobilização dos cidadãos para a vacinação em massa.

Gostaria também de notar a nossa forte cooperação militar. Desejamos assinar em breve um Memorando de Entendimento entre o Departamento de Defesa dos EUA e o Ministério da Defesa de Angola para formalizar a nossa parceria nos sectores da segurança marítima, formação de quadros, intercâmbio profissional, ensino de inglês e na luta contra o VIH/SIDA e a malária nas Forças Armadas Angolanas.

O que é preciso para reforçar as relações entre Angola e os Estados Unidos?

Em 2017, será importante que os angolanos continuem a trabalhar para um melhor clima de negócios no país. As empresas americanas podem continuar a desempenhar um papel central na economia de Angola. E gostaria de ver mais participação das empresas americanas no desenvolvimento económico deste país. O sector privado, incluindo o angolano, prosperará em ambiente dinâmico, com processos previsíveis, competitivos e transparentes, livres da excessiva burocracia que impedem as empresas e empreendedores de planificar, investir e crescer. O progresso económico e a competitividade global é uma meta partilhada por todos os países do mundo. Eu acredito que uma das formas mais efectivas para combater as desigualdades económicas e sociais é através do fortalecimento do sector privado.

Outra área que é prioritária é a reforma do sistema bancário angolano para se alinhar com os padrões internacionais e é importante que o Governo angolano faça o necessário para aumentar a sua capacidade na área da regulação e supervisão bancária. Combater os crimes financeiros e a corrupção são elementos essenciais para garantir que o sector bancário angolano recupere a sua força e as suas ligações com os bancos internacionais. Este sector tem de operar de uma maneira transparente.

Obviamente, à medida que melhoramos a economia e o sector financeiro, não podemos nos esquecer da necessidade de termos força de trabalho qualificada sem a a qual nada disto irá funcionar.

Por isso, gostaria de aumentar os contactos entre as instituições angolanas e americanas, como por exemplo, entre as universidades de ambos os países. Nós já começámos com a bolsa Mandela Washington Fellowship, através da Iniciativa para Jovens Líderes Africanos (YALI, sigla em Inglês).  A bolsa Mandela Washington Fellowship é um programa para apoiar jovens líderes africanos visando promover o crescimento e a prosperidade, fortalecer a governação democrática e consolidar a paz e a segurança em África. Esse programa tem enviado dezenas de jovens talentosos angolanos às grandes universidades americanas para se capacitarem em negócios/empreendedorismo, administração pública e liderança cívica. Eu gostaria de ver um maior contacto entre as universidades americanas e angolanas para permitir mais programas de intercâmbio educacional, bem como ver universidades americanas a trabalharem em Angola com as suas congéneres, sobretudo, na área da agricultura. 

Acha que, com a nova administração americana, isso será mais fácil ou mais difícil?

Neste momento em que falamos, a nova Administração está ainda a adaptar-se a estrutura governamental. Por isso, é prematuro falar se será mais fácil ou mais difícil. Geralmente, a política externa dos EUA para África reune o apoio de ambos os partidos Republicano e Democrata.

Esta política é assente em valores fundamentais universais e constantes da nossa democracia a despeito de quem esteja no poder nos EUA. Claro, haverá ajustes e novas iniciativas e ansiamos conhecê-las. Contudo, esperamos que haja uma relação dinâmica sob a Administração do Presidente Trump.

Pode fazer uma apreciação da liderança do presidente José Eduardo dos Santos, quer interna quer regional?

Internamente, devemos reconhecer o papel que o Presidente dos Santos, tal como outros angolanos, desempenhou para o processo de pacificação de Angola e a reconciliação nacional. O facto de ter apostado em muitos quadros que vieram de outros partidos para ocupar cargos de destaque na estrutura do estado, mostra a sua visão de inclusão e unidade entre os angolanos. O Presidente dos Santos tem promovido o respeito pela constituição e tem sido um dos pilares para a garantia da paz.

No quadro regional, saudamos os esforços de Angola e a liderança do Presidente Eduardo dos Santos para a pacificação da África Central, sobretudo na RDC, RCA e o Sudão do Sul. Desde que Angola assumiu a presidência da Conferência Internacional sobre a Região dos Grandes Lagos, tem havido mais diálogo entre os líderes regionais para se encontrar soluções sem o recurso às armas de forma constante.

Como encaram os Estados Unidos a notícia acerca da saída do presidente José Eduardo dos Santos, assim como da indicação, pelo MPLA, de um novo candidato ao cargo de presidente da República?

Nós consideramos a transição como um processo normal da construção e fortalecimento da democracia. Estamos prontos para trabalhar com qualquer figura angolana que for eleita pelo povo angolano para a chefia do Governo do país.

Depois de anos a crescer significativamente, após o fim da guerra, em 2002, Angola entrou numa severa crise económico-financeira. Como vê o futuro do país, a médio prazo?

Sou optimista. Embora haja desafios, acredito no futuro de Angola. Para tal, é preciso tomarem-se passos essenciais para a promoção da diversificação económica, onde as pequenas e médias empresas sejam valorizadas, incluindo a agricultura familiar. É essencial aumentar a transparência no país, lutar contra a corrupção e diminuir os obstáculos de negócio para as empresas angolanas e internacionais. Não podemos esquecer que o sucesso de qualquer país depende de instituições previsíveis, do Estado de direito e da vontade do seu povo em construir a nação.

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