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Pepetela: “A fórmula da atividade política feita por partidos não resulta no mundo de hoje”

| Editoria Entrevistas | 11/03/2017

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Militante do MPLA, lutador pela independência de Angola, governante no pós-independência, abandonou a vida política orgânica e abdicou de quaisquer cargos oficiais para se dedicar em tempo inteiro à escrita. Mas continua atento ao funcionamento da sociedade, em Angola e no mundo. Em Angola, diz que pode ser dado o benefício da dúvida à mudança anunciada pelo MPLA, com a indicação de João Lourenço para suceder a José Eduardo. No mundo, considera a eleição de Donald Trump uma farsa e acha que é preciso encontrar novos modelos para a atividade política.


 África21. Guerrilheiro, ministro, sociólogo, escritor. Qual é a sua «pele»?

Pepetela.Sou um contador de estórias. Agora, gosto de inventar umas maneiras de contar que não são sempre iguais, é só isso.

Já foi traduzido para 24 línguas e publicado em dezenas de países. Quem são os seus principais leitores?

Acho que continuam a ser os angolanos. Agora aumentou o número de leitores no Brasil, e não é por eu ir mais ao Brasil ou menos. O Mayombe foi adotado para a FUVEST (Fundação Universitária responsável pela realização dos exames vestibulares de escolas de nível superior do Estado de São Paulo) e vai ser por três anos um livro obrigatório no vestibular para a Universidade de São Paulo. São 140 mil candidatos. Teoricamente, 140 mil deveriam ler o livro. 

E não tem havido um aumento do número de leitores entre os estudantes angolanos?

Não, porque não há nenhum incentivo nas escolas para que eles leiam. E não é só das minhas obras. Eu posso dar o exemplo da Faculdade de Arquitetura. Nos anos 1980, quando comecei a dar aulas, eu sempre perguntava «quem é que já leu um livro que não seja relacionado com o curso?». Havia muita gente que dizia «eu li As Aventuras de Ngunga, eu li o Mayombe», falavam dos meus livros ou, por exemplo, do Manuel Rui Monteiro, Quem me dera ser onda. Até que, nos últimos tempos, era raríssimo ver alguém que tivesse lido alguma coisa. Isso porque não são estimulados desde o ensino médio ou do ensino de base. Portanto, há uma diminuição de leitores mais novos. Há os mais velhos, gente de 50, 60 anos e tal. Esses se mantêm e vão aparecendo uns ou outros novos, angolanos, mas é sobretudo pessoas que estudaram fora.

 Como vê a literatura angolana atualmente? Além dos mais velhos e dos que surgiram mais tarde com as brigadas jovens de literatura, há novidades no panorama literário angolano?

Assim coisa que seja diferente, não. É um pouco a continuação, com temas de atualidade ou de influência do estrangeiro ou uma espécie de literatura do rap ou o rap da literatura. Uma tentativa de modernização ao lado da desconstrução de coisas. Mas isso é mais de gente que anda por fora. Na verdade, eu já não consigo ler tudo, sai muita coisa constantemente. Têm aparecido pessoas que eu considero, mas só quando têm 40 anos é que a pessoa começa a chegar, já não como antes que aos 30, e até mais cedo, já se era conhecido. Há o caso do Ondjaki, que irrompeu aos vinte e poucos, o Agualusa antes, mas são exceções. Há uma série de escritores bons, o problema é que não são conhecidos. O público é pequeno, muito pequeno, mesmo para Angola. Escritores que nunca saíram de Angola sequer e escrevem sobre a atualidade angolana que podia interessar às gerações mais jovens.

A que se deve isso?

O problema é mesmo do ensino que não incentiva minimamente os jovens para a leitura. As escolas não têm biblioteca sequer. Uma escola sem biblioteca para mim não é uma escola. Passo a vida a dizer isso e toda gente diz «esse mais velho tem razão», mas… 

Entretanto, se calhar, o problema é ao nível da literatura, de fazer literatura. Há pessoas que têm domínio da arte da narrativa, são capazes, contam estórias, sabem contar a estória, o problema é a língua, que é o instrumento fundamental. E se não dominas muito bem uma língua, não dá. Receberam um péssimo ensino na escola, não dominam muito bem a língua portuguesa e todos querem escrever na língua portuguesa, para um público mais vasto, claro, que é normal. Depois, não há crítica literária. Os jornais nem tocam nessa questão de literatura. Só há o jornal da cultura, de quinze em quinze dias. Esse é um problema da literatura em Angola. 

Saindo um pouco da literatura, o que acha dessa fase da humanidade que o historiador cientista político camaronês Achille Bembe acredita ser o fim da era do humanismo?

Pode não ser o fim. Eu escrevi um livro, Quase o fim do mundo, portanto, posso dizer o quase fim do humanismo, mas sempre sobra alguma coisa. Mas, realmente, é uma era em que o humanismo não é uma preocupação para ninguém. Eu também sinto isso. Cada vez mais as pessoas pensam: «passa por cima de todos, mas tu afirma-te, afirma-te para ganhar dinheiro». Ou então: «afirma-te porque afirmando-te ganhas dinheiro». O objetivo é ganhar dinheiro. Tu e, mais tarde, a tua família também.

Chegou-se a um ponto tal de desumanização, de brutalidade que como o Marx dizia, a história que acontece da primeira vez é uma tragédia, da segunda vez é uma farsa. Bom, nós entrámos na farsa. Haver um Trump nos Estados Unidos é uma farsa. Uma pessoa só se pode rir. Com muita vontade consegue chorar, mas o primeiro sentido é de rir e dizer «Como é que aquela grande potência, os senhores do mundo… Os senhores do mundo afinal são aquilo?». Isso leva as pessoas a tomar consciência da falibilidade de todos os sistemas que têm sido montados e que estão montados. Todos esses sistemas são falíveis e acho que este atual do capitalismo sem limites, capitalismo financeiro especulativo, não pode resultar. 

Foi um guerrilheiro que lutou pela independência e depois, nos primeiros tempos, um dirigente do MPLA na área da educação. Continua a ser militante partidário?

Não, eu saí em 1984. Saí no sentido de não fazer parte de nenhuma célula, deixei de pagar quotas e comecei algum tempo depois a dizer «não, não sou do MPLA». Fui do MPLA, não sou. Divórcio amigável, mas estamos divorciados.

Mas continua sintonizado com o que foram os objetivos históricos da luta pela independência?

Sim, exatamente, aliás, os meus amigos são do MPLA e nós discutimos isso. O Paulo Jorge ficava sempre zangado comigo. Eu não ficada zangado, era ele quem ficava, porque eu é que criticava. Mas muitos amigos são do MPLA e nós discutimos e hoje em dia eles dão-me razão. E há cada vez mais pessoas dentro do MPLA que percebem que havia uns germes e que deixou-se esses germes crescerem e tomaram conta de tudo.

E o que acha do novo quadro que se está a gerar com as eleições em 2017?

Podemos dar o benefício da dúvida a essa mudança. Agora vamos ver, se a coisa correr muito bem… Mas a coisa tem de correr muito bem e tem que haver ainda mais sinais. O candidato principal do MPLA, João Lourenço, está a dar alguns sinais, a luta contra a corrupção, a insistência na educação, uma certa abertura até para o diálogo. Ele disse que está disposto a debater, a haver debates e coisa assim do género. Portanto, haver uma certa democratização, aquela parte de democratização que está na constituição e que não foi cumprida. Se se conseguir isso e se o processo eleitoral correr bem...

Um dos aspetos que já está a correr mal é a oposição dizer que vai haver fraude, que é a pior coisa que há. O Savimbi começou assim, portanto, eu fico arrepiado quando começam a dizer isso. Uma pessoa já sabe que vai perder e já está a desculpar-se. Agora como é tudo com computadores, provavelmente vai vir aqui a máfia russa a mexer nos computadores e já estamos nós outra vez na farsa…

Qual o legado que, na sua opinião, o Presidente José Eduardo dos Santos deixa ao país? 

Sem qualquer dúvida, o de ter tentado promover a reconciliação nacional, refreando algumas cabeças mais quentes, quando se chegou ao triunfo militar. O título de Homem de Paz cai-lhe bem. Não chamo Príncipe, como alguns, porque não sou monárquico. 

E como está a ver essa tendência, essa onda conservadora que começa a tomar conta das Américas de uma forma geral e também da Europa?

Há uma questão que eu costumo pôr e que serve para todos os lados. Eu tenho muitas dúvidas. Tinha quando era muito jovem, depois deixei-me convencer e, pouco tempo depois voltei a ter a mesma dúvida. É sobre a fórmula de partido. A fórmula da atividade política feita por partidos que obrigam o militante a fazer muitas vezes contra aquilo que ele está a pensar. Isso não resulta no mundo de hoje, não funciona. Temos de inventar outras fórmulas de organização e com os meios que há hoje também é muito difícil. Mas o tipo de atuação de comunidade, o reavivar do sentido de comunidade já começa a ser forte em alguns países, que também é uma via que se liga com o resto. Não digo que seja isto, mas também é uma via. Vai haver muitos fatores que têm que se pôr em jogo, mas por aí, sim, eu começo a ver que vai haver mais participação.

Como se pode fazer isso em África e, especificamente, em Angola?

Nós temos de inventar o nosso modelo. A ideia fundamental é a cultura do jango. O jango que fica no meio da aldeia e que ao fim da tarde toda a gente se reúne, conversa. Essa coisa do jango, da conversa, é exatamente o contrário do que se passa, por exemplo, em Luanda. Não há praças, não há sítios onde as pessoas se encontram, só mesmo se resolvem ir jantar fora juntos, num restaurante. De resto, assim, ao fim da tarde, encontrarem-se, no bairro, na vizinhança… Realmente é fundamental. É isso que eu falava de ir buscar as coisas lá, naquelas culturas antigas. Mas não se trata de numa cidade moderna, fazer aí uns jangos. São os valores, o modelo, a convivialidade, a hospitalidade, que eram princípios próprios das sociedades angolanas. Na altura da independência, as pessoas iam sempre a casa uns dos outros, juntavam-se depois do trabalho para conversar e havia gente com ideias muito diferentes e conversava-se. Hoje as pessoas estão cada vez mais iguais, juntam-se a cada vez mais iguais, então, a conversa é quase sempre praticamente a mesma e com o mesmo tom. 

Entrevista conduzida por João Belisário e publicada na edição impressa nº 116 da revista ÁFRICA21 (Março 2017)

Perfil

Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos nasceu a 29 de outubro de 1941, em Benguela, onde fez os seus estudos primários. Concluiu os secundários em Lubango, partindo em 1958, para Lisboa onde frequentou o Instituto Superior Técnico e participou em atividades literárias e políticas na Casa dos Estudantes do Império. Em 1962, saiu de Portugal para Paris, onde passou seis meses, seguindo para a Argélia, onde se licenciou em Sociologia e trabalhou na representação do MPLA e no centro de Estudos Angolanos, que ajudou a criar.

Adotou o nome Pepetela, do Umbundu, a partir do seu sobrenome Pestana. É assim que tem assinado a sua longa obra literária – com títulos como Mayombe, Lueji, Predadores ou o mais recente Se o Passado não Tivesse Asas –, que lhe valeu, entre outros, o Prémio Camões em 1997. O escritor, que foi docente da Faculdade de Arquitetura da Universidade Agostinho Neto em Luanda, tem sido dirigente de associações culturais. É o presidente da Assembleia-geral da Academia Angolana de Letras, criada em setembro de 2016.

Pepetela é cronista da África21 desde março de 2007. Em 2015, selecionou e publicou um conjunto de crónicas a que deu o título Crónicas Maldispostas. Suspendeu provisoriamente a sua colaboração com a revista, para descansar.

 

 

 

 

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