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Unesco publica Relatório Mundial sobre o Desenvolvimento dos Recursos Hídricos

| Editoria Sociedade | 22/03/2018

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A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) lança nesta segunda-feira (19) o Relatório Mundial das Nações Unidas sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos 2018, durante a abertura oficial do 8º Fórum Mundial da Água, em Brasília. A edição incentiva a busca por soluções baseadas na natureza (SbN), que usam ou simulam processos naturais para contribuir com o aperfeiçoamento da gestão da água no mundo.

O documento mostra que apesar da disseminação das tecnologias que envolvem a conservação ou a reabilitação de ecossistemas naturais, esses processos correspondem a menos de 1% do investimento total em infra-estrutura para a gestão dos recursos hídricos. Segundo a oficial do Programa Mundial de Avaliação de Recursos Hídricos da Unesco, Ângela Ortigara, o objectivo da publicação é incentivar a adopção de soluções baseadas na natureza para que sejam efectivamente consideradas na gestão da água.

“O que acontece, muitas vezes, é que, por facilidade, ou falta de conhecimento, ninguém pensa que se pode utilizar a natureza para gerir, por exemplo, enchentes ou prevenir um caso de seca. E, no entanto, o que se quer nesse relatório é mostrar que não é preciso necessariamente construir grandes obras de infra-estrutura para melhorar a gestão da água”, afirmou Ângela, em entrevista exclusiva aos veículos da  Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

O relatório da Unesco ressalta que abordagens tradicionais não permitem que a segurança hídrica sustentável seja alcançada. Já as soluções baseadas na natureza trabalham directamente com a natureza, não contra ela e por isso oferecem meios essenciais para ir além das abordagens tradicionais, de modo a aumentar os ganhos em eficiência social, económica e hidrológica no que diz respeito à gestão da água. “As SbN são especialmente promissoras na obtenção de progressos em direcção à produção alimentar sustentável, à melhora dos assentamentos humanos, ao acesso ao fornecimento de água potável e aos serviços de saneamento, e à redução de riscos de desastres relacionados à água. Elas também podem ajudar na resposta aos impactos causados pela mudança climática sobre os recursos hídricos”, diz a publicação.

“O relatório quer que as pessoas abram os olhos para soluções que talvez não estejam tão claras do ponto de vista de engenharia, não sejam tão conhecidas, mas que podem trazer soluções que não são banais. Se decidir reflorestar uma área, a primeira coisa que vai pensar é: essa área estará coberta, terá animais, mas também ajudará a recarregar a água subterrânea, os aquíferos”, disse a oficial da Unesco. “Há uma série de benefícios que são difíceis de ser quantificados economicamente e talvez essa seja uma das razões pelas quais essas soluções não venham sendo utilizadas. No entanto, são benefícios que têm que ser considerados se pensarmos em longo prazo”, completou Ângela Ortigara.

Entre os exemplos dados pela publicação está a ampliação de banheiros secos, aqueles que evitam o lançamento de dejectos em tubulações ligadas a centros de tratamento de água ou em rios. Esse tipo de banheiro também permite a produção de composto orgânico ao final do processo. Em uma proposta de solução mais ampla, o relatório apresenta a experiência das cidades-esponjas, na China, em que construções absorvem água da chuva de forma rápida e segura.

Economia

De acordo com o relatório, as soluções baseadas na natureza apoiam a “economia circular”, aquela considerada restauradora e regenerativa, que busca reduzir os desperdícios e evitar a poluição, inclusive por meio de reutilizar e da reciclagem. Além disso, a tecnologia apoia os conceitos de crescimento verde e de economia verde, que  promovem o uso sustentável dos recursos naturais e aproveitam os processos naturais como fundamento das economias. “Essa utilização das SbN no sector hídrico também gera benefícios no campo social, económico e ambiental, incluindo a melhoria da saúde humana e dos meios de subsistência, o crescimento económico sustentável, empregos dignos, a reabilitação e a manutenção de ecossistemas, e a protecção/desenvolvimento da biodiversidade”, ressalta a publicação.

O relatório diz que a demanda mundial por água tem aumentado a uma taxa de aproximadamente 1% ao ano, devido ao crescimento populacional, ao desenvolvimento económico e às mudanças nos padrões de consumo, entre outros factores, e continuará a aumentar de forma significativa durante as próximas duas décadas. No entanto, ao mesmo tempo, o ciclo hídrico mundial está se intensificando devido à mudança climática, com a tendência de regiões já húmidas ou secas apresentarem situações cada vez mais extremas.

Actualmente, estima-se que 3,6 bilhões de pessoas (quase metade da população mundial) vivem em áreas que apresentam potencial escassez de água de, pelo menos, um mês por ano. A expectativa, segundo a publicação, é de que essa população poderá aumentar para algo entre 4,8 bilhões e 5,7 bilhões até 2050.

Desafios

De acordo com o relatório da Unesco, a degradação dos ecossistemas é uma das principais causas dos desafios relativos à gestão da água. A publicação estima que, desde 1900, entre 64% e 71% das zonas húmidas de todo o mundo foram perdidas devido às actividades humanas. Todas essas mudanças têm gerado impactos negativos na hidrologia, desde a escala local até a escala regional e mundial.

Outro desafio mostrado pela publicação é a qualidade da água. Desde a década de 1990, a poluição hídrica piorou em quase todos os rios da América Latina, da África e da Ásia. O documento prevê que a deterioração da qualidade da água se ampliará ainda mais durante as próximas décadas, o que aumentará as ameaças à saúde humana, ao meio ambiente e ao desenvolvimento sustentável.

O relatório prevê ainda que o aumento de exposição a substâncias poluentes será maior em países de renda baixa e média-baixa, principalmente devido ao crescimento populacional e económico e à ausência de sistemas de gestão das águas residuais.

A publicação também estima que o número de pessoas que se encontram em situação de risco de inundações aumentará do actual 1,2 bilhão, para cerca de 1,6 bilhão, em 2050 – o correspondente a aproximadamente 20% da população mundial. A população actualmente afectada pela degradação e/ou pela desertificação e pelas secas é estimada em 1,8 bilhão de pessoas, o que torna essa categoria de “desastres naturais” a mais significativa, com base na mortalidade e no impacto socioeconómico relativo ao Produto Interno Bruto (PIB) per capita.

Uso do solo

De acordo com o documento, os ecossistemas exercem importante influência no ciclo das chuvas, em escala local e continental. Em vez de ser considerada uma “consumidora” de água, a publicação ressalta que a vegetação deve ser vista como uma “recicladora” de água. Em âmbito mundial, até 40% da precipitação terrestre são gerados pela transpiração vegetal e pela evaporação do solo, também responsáveis pela maior parte das precipitações em algumas regiões.

“Portanto, as decisões relativas ao uso do solo em um determinado lugar podem ter consequências significativas para os recursos hídricos, as pessoas, a economia e o meio ambiente em lugares distantes – o que indica as limitações das bacias de drenagem (em oposição às “bacias de precipitação”) em servir como bases para o gerenciamento da água”, diz o texto.

Como alternativa, o relatório indica a parceria entre a tecnologia tradicional com o uso de infra-estrutura verde, voltada para os recursos hídricos, que usa sistemas naturais ou semi-naturais para oferecer opções de gestão da água, com benefícios equivalentes ou similares à tradicional infra-estrutura hídrica cinza (construída/física).

“Em algumas situações, as abordagens baseadas na natureza podem oferecer a principal ou a única solução viável (por exemplo, a recuperação de paisagens para combater a degradação do solo e a desertificação), ao passo que para outras finalidades apenas uma infra-estrutura cinza funcionaria (por exemplo, o fornecimento de água para uma casa por meio de canos e torneiras). Contudo, na maioria dos casos, as infra-estruturas verdes e as infra-estruturas cinzas podem e devem trabalhar em conjunto”, acrescenta a publicação.

Riscos relacionados à água

Actualmente, o mundo todo tem presenciado os riscos de desastres relacionados à água, como inundações e secas associadas a uma crescente mudança temporária de recursos hídricos em virtude de alterações climáticas. Segundo o relatório, cerca de 30% da população mundial vive em áreas e regiões afectadas rotineiramente por inundações e secas. A degradação dos ecossistemas é a principal causa dos crescentes riscos e eventos extremos relacionados à água e, além disso, ela reduz a capacidade de aproveitar plenamente o potencial das soluções baseadas na natureza.

“Vemos que cada vez mais estão se intensificando os eventos extremos, desastres naturais, justamente nas áreas que já estão sujeitas a esses desastres. Onde há seca, em zonas extremamente áridas, haverá cada vez mais secas, com cada vez mais impactos. Onde há inundações, vai ter cada vez mais inundações. O que vai acontecer é que áreas que nunca vivenciaram desastres naturais também poderão viver esses fenómenos. Isso é o principal desafio, que em parte pode ser controlado, mas grande parte, não”, afirmou o oficial de projectos de Meio Ambiente da Unesco, Massimiliano Lombardo.

Para a Unesco, a infra-estrutura verde é capaz de desempenhar importantes funções relacionadas à redução de riscos. A combinação de abordagens de infra-estrutura verde e cinza pode levar à redução de custos e a uma redução geral dos riscos. “As SbN podem melhorar a segurança hídrica geral, aumentando a disponibilidade e a qualidade da água e, ao mesmo tempo, reduzindo os riscos de desastres relacionados à água e gerando benefícios sociais, económicos e ambientais. Elas permitem a identificação de resultados positivos para todos os sectores”, diz o texto.

Inércia política

De acordo com o relatório, ainda existe uma inércia histórica contra as soluções baseadas na natureza, devido ao predomínio contínuo de soluções de infra-estrutura cinza nos actuais instrumentos dos países em relação às políticas públicas, aos códigos e normas de construção. A consequência disso, em conjunto com outros factores, é a frequente percepção de que as soluções baseadas na natureza são percebidas como menos eficientes, ou mais arriscadas do que os sistemas construídos (com infra-estrutura cinza).

“Muitas vezes, as SbN exigem cooperação entre as várias partes e instituições interessadas, o que pode ser difícil de alcançar. Os arranjos institucionais actuais não evoluíram, levando em consideração a cooperação no que diz respeito às SbN. Faltam consciencialização, comunicação e conhecimento em todos os âmbitos, das comunidades aos planeadores regionais aos formuladores de políticas nacionais, sobre o que as SbN realmente podem oferecer”.

“Continuam a existir mitos e/ ou incertezas sobre o funcionamento da infra-estrutura natural ou verde, assim como sobre o que significam os serviços ecossistêmicos, em termos práticos. Também não é totalmente claro, às vezes, o que constitui uma SbN. Faltam orientação técnica, ferramentas e abordagens para determinar a combinação correcta de opções de SbN e infra-estrutura cinza”, adverte o documento.

Limites

O relatório alerta que é necessário reconhecer os limites da capacidade de suporte dos ecossistemas e determinar os valores a partir dos quais pressões adicionais causarão danos irreversíveis aos próprios ecossistemas. “Há limites ao que os ecossistemas são capazes de alcançar, e esses limites devem ser identificados com maior precisão. Por exemplo, os “pontos críticos”, além dos quais as mudanças negativas nos ecossistemas se tornam irreversíveis, são bem estudados na teoria, mas raramente são quantificados”, indica a publicação.

Segundo o documento as soluções baseadas na natureza não necessariamente exigem recursos financeiros adicionais, mas normalmente envolvem o seu redireccionamento, ou o uso mais efectivo dos financiamentos já existentes. “Investimentos em infra-estrutura verde estão sendo mobilizados graças ao crescente reconhecimento do potencial dos serviços ecossistêmicos em oferecer soluções que tornam os investimentos mais sustentáveis e mais custo efectivo no longo prazo”.

“O investimento nas soluções verdes é ainda muito baixo. Se você tiver que tomar uma decisão para a gerência da água, eu diria: por favor, considere coisas que são diferentes das usuais. Pense em soluções mais verdes, que possam trazer benefícios não só para levar água do ponto A para o ponto B, mas para que nesse caminho possa gerar benefícios para o meio ambiente”, avaliou Ângela Ortigara. “É necessário, principalmente para um país grande como o Brasil, em que a gente sempre pensa que tem muita água, suficiente para tudo, e acontece como em 2015, a seca em São Paulo, e a gente não sabe por quê”, completou.

O documento apoia ainda a incorporação de conhecimentos e práticas tradicionais às já consolidadas por comunidades locais sobre o funcionamento dos ecossistemas e a inteiração natureza sociedade. Nesse sentido, a publicação sugere que devem ser feitas melhorias quanto à incorporação desses conhecimentos nas avaliações e no processo decisório.

“O relatório demonstra que o ser humano pode fazer uma parceria com a natureza, em vez de lutar e querer que ela se conforme com as nossas necessidades, é [importante] tentar acomodar a necessidade da natureza, no caso da água, de se espalhar, inundar uma planície, porque isso é importante para preservar a qualidade e a quantidade da água que, depois, o ser humano vai utilizar”, concluiu o oficial de projectos Massimiliano Lombardo.

Publicação

O Relatório Mundial das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento dos Recursos Hídricos (World Water Development Report – WWDR) é publicado anualmente, com foco em questões estratégicas sobre a água. O documento oferece um quadro geral do estado dos recursos de água potável no mundo e visa a proporcionar as ferramentas sustentáveis a serem utilizadas pelos tomadores de decisões.

 

 

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