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É possível!

Odete Costa Semedo | Editoria Opinião | 22/06/2018

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Nem sei se chamo a isto de crónica, pois em cada história dessas os meus navios fundeiam em qualquer estuário, desde que o destino assim o queira, mas, desta vez, quem acenou o barco que se distanciava do porto de Bandim[1], fui eu.

Diante do que podia constituir memória de mulheres, algures, senti-me motivada a partilhar com a tripulação a fala de uma das senhoras que se encontravam no porto.

Olhei aquelas criaturas, suas pernas mutiladas pelas águas do Geba que lhes batia nos joelhos. Pois é! Era a sensação que dava quando, ao longe, mirámos os vários grupos de mulheres que se metem rio adentro, com vasilhas na cabeça, abeirando-se das canoas cheias de peixe. A medida que avançam, levantam os panos e as saias para os atarem acima dos joelhos, evitando que fiquem encharcados.

É ali, nesse mar, que as senhoras negoceiam e regateiam os preços, até a um valor que lhes permitirá ter lucro. As que entram no rio como compradoras, saem das águas, feitas mulheres-serpente, já no papel de vendedeiras. E foi no meio dessas mulheres bideiras[2] que encontrei Y, mulher simples que pelo seu rosto e firmeza do corpo não passava dos quarenta e cinco anos.

Não resisti, acenei o navio da memória, para que viesse testemunhar mais uma história de vida, comigo à beira rio. Y acabava de descarregar o pescado no balcão. Negociámos o preço do bagre e ela acabou por me impingir corvina e peixe-banda. Conversa puxa conversa, reparei que ela tinha estudo e fiz essa observação. Então, contou-me ela que fez curso de professora na Escola Superior. Como foi parar ali? Foi a minha primeira curiosidade, a que me respondeu que era por uma vida digna e pelas filhas.

Y contou-me a sua história, enquanto pesava, discutia, tirava um e punha outro peixe na balança, equilibrando a quantia e o peso. Disse-me que deixou de dar aulas quando a segunda filha fez seis anos. Tinha passado meses sem receber. Depois, vieram as greves de professores, algo interminável. Nesse período Y acompanhava a sua vizinha bideira à compra do pescado, serviço que lhe valia alguns quilos de peixe.

Como podem imaginar, saiu-me a pergunta óbvia: e o pai das meninas? Emigrou! Respondeu-me! Primeiro para Cabo Verde, depois, Estados Unidos onde se casou, para poder ter documento. Dissera que era um casamento fictício, mas do qual nasceram duas meninas de carne e osso. E eu só lhe fiz duas perguntas: De que são feitos os filhos fictícios? E, Como fará chegar a mesada das meninas até a mim?

Quando o marido lhe respondeu ‘logo se verá’, ela disse que não lhe rogou praga, apenas desligou o telefone. Estava revoltada, procurou culpados; pensou nas dificuldades, mas, sobretudo, no facto de que tinha uma formação.

Como era possível ter um curso e não poder valer-se dele para o seu sustento e o das filhas? Disse-me ter-se lembrado da sua vizinha que não teve oportunidade de ir à escola, mas que a tinha como sua ajudante. Subitamente uma luz se acendeu na sua mente. Determinou seguir em frente com a sua vida; trabalhar para realizar o sonho das filhas. Fui e aqui estou eu! Disse-me.

De repente, dei conta de que o meu peixe precisava ser limpo e conservado, peguei na bolsa e Y apressou-se a colocar-me uma pá de gelo em escamas dentro do saco.

Huum, a conversa alongou-se, com a Y pesando o peixe e passando o troco; para no fim contar-me, com grande orgulho, que a filha mais velha já estava no terceiro ano de medicina no exterior, pago por ela, e a mais nova tinha acabado de entrar para a Faculdade de Direito. Era essa que a ajudava nas lides e cuidava da contabilidade e dos depósitos no Banco.

Olha, amiga, disse-me Y, os meus sonhos vão concretizar-se, através das minhas filhas. Elas estão orientadas! Hoje, a minha luta é para ter um pequeno grupo que venda o meu pescado, porque daqui a um mês a minha canoa vai começar a trabalhar. Já tenho motor fora-de-bordo, pescadores e todos os materiais necessários para a faina.

Mulher resiliente, hein!

 



[1] Bandim – nome de um bairro em Bissau, cujo limite vai dar ao rio Geba e onde foi construído um porto para desembarque do pescado.

[2] Bideiras – em crioulo guineense significa revendedeira.

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