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A Tanatopolítica - fragmentos

Luís Carlos Patraquim | Editoria | 04/10/2018

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Por Luís Patraquim

Achille Mbembe designa a tanatopolítica como necropolítica. É um conceito operativo importante que abarca vários territórios: da colonialidade ao neoliberalismo predatório, do poder soberano – suas realidades e ficções -, à biopolítica… que é onde estamos. Os arquipélagos da identidade são a metáfora espácio-temporal do corpo a ser e a possuir seja como redenção seja como cicatriz. Na pós-colonialidade a identidade, que o discurso hegemónico do poder político dissemina, funciona tantas vezes como uma espécie de deus ex-machina que jugula os vazos comunicantes da produção e troca de sentidos e mumifica os símbolos ainda permeáveis à mobilidade de que o tempo é feito, sempre em relação.

A necropolítica elaborada por Achille Mbembe articula a biopolítica formulada por Foucault, acrescentada por Robert Esposito e outros, à análise de Franz Fanon sobre as múltiplas formas da violência colonial que as sociedades pós-coloniais vão metamorfosear operando, via instância teleológica e messiânica, em novas estratégias de dominação, as que conhecemos nas nossas sociedades africanas, de que o afropolitanismo (outro conceito que A. Mbembe explora) se pretende libertar e propor como uma espécie de regulação entre aporias endógenas e a abertura aos mundos, os todos, de dentro e de fora.

A necropolítica induz-nos a uma “gestão” da morte como imperativo da vida e dissemina, a uma escala predadora e assassina, o monopólio da violência que é o múnus do Estado. Embora o Estado seja hoje o menos e o mais do que a filosofia política pensou dele. Na revolução tecnológica que nos “liberta” e “domina, o Estado é um concentrado das análises políticas “tradicionais”, do Absoluto hegeliano à expressão de classe, da “impiedade” hobbesiana” ao strawberryfields das assumpções libertadoras, do pasmo histórico dos labirintos das muitas solidões ao “sobressalto da respiração” que o poema comporta, despido de toda a épica, com uma nova causa primeira que o assola, diluído que está o demiurgo platónico, metamorfoseado hoje esse demiurgo no algoritmo, esse abre-te sésamo que é o novo trono de todas as dominações e a jubilação da razão instrumental.

A tanatopolítica, nesta descrónica, é o nosso storytelling quotidiano.O termo será sinistramente pomposo. A tanatopolítica que preside às esquinas dos nossos dias vividos e inventados concretiza-se numa task-force que nos instila a ameaça e com ela o medo e com ele a modulação e categorização dos comportamentos, das elocuções e dos valores. É um precipitado que o bloco hegemónico nacional mobiliza em operações de execução do que considera ser o desvio da norma. É preciso dizer que a norma é um concentrado de legitimação histórica, já petrificada no tempo, de um momento libertador, aquele que abriu a possibilidade de outrar a vida e a isso radiantemente chamámos momento de libertação, proclamadas independências, país.

Nada é mais complexo do que a gramática, as gramáticas, da nossa libertação. No meu país e nos dias que decorrem entre iluminações e assombramentos, o percurso vem sendo por demais sinuoso. Circundam-nos outros campos de trânsito. As circunvalações da delimitação e violenta antinomia colonial escarificam com novas cicatrizes o corpo-puzzle das nossas libertações. O institucional dança ao sabor das informalidades que cobrem com uma velatura os interesses partilhados entre poucos, doados à predação global, apresentados como realizações de uma estratégia desenvolvimentista que exclui.

(Leia o artigo na integra na edição nº 132 da Revista África 21, mês de Setembro)

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