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O DILEMA AMERICANO DA RETIRADA SEM GLÓRIA

| Editoria Política | 19/11/2018

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Ao mesmo tempo que se acentua a ofensiva taliban contra as forças de Kabul e o contingente militar americano em acção no país desde 2001, as eleições para o parlamento afegão, que tiveram lugar em 20 e 21 de Outubro, registou fraca adesão da população e nalguns casos os agentes eleitorais foram recebidos com hostilidade por parte das autoridades tradicionais.

O recente atentado ao quartel regional dos serviços de Informação e Segurança em Kandahar, cidade histórica situada no sul do país, ceifou a vida ao todo poderoso general Absul Raziq, mítico chefe da polícia de Kabul e a diversos quadros superiores de segurança. O general norte-americano Jeffrey Smiley foi ferido e por pouco não atingiu o comandante-em-chefe americano, Austin “Scott” Miller, que tinha abandonado o local momentos antes.

Estas eleições efectuadas a meio de uma guerra que dura há 17 anos foram organizadas pelo governo afegão presidido por Ahraf Ghani, que procura obter legitimidade internacional. Elas obtiveram o registo de um terço da população. No entanto, dos inscritos nas listas eleitorais só metade exerceu o direito de voto. Mas se muitos eleitores estavam receosos das represálias dos talibans em algumas circunscrições, em Paktia, no sudeste do país, chefes tribais agrediram os funcionários do governo e roubaram as urnas e as máquinas biométricas utilizadas no pleito eleitoral.

Os insurgentes controlam totalmente um quinto do território afegão e em mais de metade do país decorre uma acção de disputa diária com as forças de Kabul. Nos primeiros nove meses deste ano, 2 700 civis foram mortos pelos taliban, o maior número desde 2014. Trinta a quarenta soldados e polícias afegãos são mortos diariamente este ano contra 22 em 2014.

Os Estados Unidos gastaram, no apoio às forças de Kabul, cerca de 70 mil milhões de dólares desde o início da guerra e parece ter desistido de uma retirada vitoriosa do teatro de guerra afegão. Os americanos estão a tentar negociar uma descolagem do conflito que minimize a sua imagem diplomática na região, sobretudo que não se assemelhe à derrota do Vietname, em 1975.

As conversações para uma retirada americana começaram nos primeiros meses do ano, mas se a guerra é áspera a diplomacia não parece mais fácil. O movimento taliban não aceita negociar com os “fantoches” de Kabul. Eles preferem negociações directas com os americanos que já vêm acontecendo nos encontros de Doha, além de encontros oficiosos discretos, ou quase secretos, que conduziram a um breve cessar-fogo entre as duas partes.

A nomeação de Zalmay Khalizad poderá desbloquear o impasse e remover os obstáculos. Ele é um afegão-americano que exerceu as funções de embaixador americano em Kabul entre 2003 e 2005, como representante americano para as negociações de paz e considerado um dos “ouvidos” de Donald Trump.

Embora recentes informações asseverem que a nova geração taliban parece também cansada do conflito que se eterniza, resta convencer também os serviços de inteligência paquistaneses que controlam as chefias militares do movimento islâmico, além de uma consertação política com a China, India e Irão, muito atentos ao desfecho do conflito que se reveste de uma importância geo-estratégica.

 

 

 

 

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