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Corno de África Da precária delimitação fronteiriça ao epicentro do radicalismo islâmico

| Editoria | 19/11/2018

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Por Fernando Gonçalves

Corno de África refere-se a uma península localizada no nordeste de África, da qual fazem parte o Djibouti, a Eritreia, a Etiópia e a Somália, no ponto de encontro do oceano Índico, o Mar Vermelho e o Golfo de Aden. É a zona de fronteira entre a África e o Médio Oriente, o que significa que estes países possuem uma forte influência árabe.

Embora não façam exactamente parte desta região, em termos geopolíticos, países como o Quénia, o Sudão e o Sudão do Sul possuem fortes laços com o Corno de África.

A precária definição das fronteiras na região já conduziu à várias guerras sangrentas, incluindo entre a Somália e a Etiópia, de 1977 a 1978, e entre a Etiópia e a Eritreia, de 1998 a 2000. Além destas guerras, a região tem registado uma série de conflitos não armados entre o Djibouti e a Eritreia, e entre esta  e o Yemen. O conflito mais longo foi de 1961 a 1991 em que a Eritreia reivindicava a sua independência da Etiópia.

Contudo, a independência da Eritreia não significou o fim do conflito com a Etiópia, uma vez que os dois países nunca haviam chegado a acordo quanto à demarcação da sua fronteira comum. O problema da fronteira entre os dois países conduziu a uma nova guerra, que só viria a terminar, formalmente, com a assinatura de um acordo de paz em Julho de 2018, durante uma cimeira em Asmara, entre o presidente Isaias Afewerki, da Eritreia, e o novo primeiro ministro da Etiópia, Abiy Ahmed. Este acordo só foi possível depois de Ahmed ter anunciado, em Junho, que o seu governo aceitava na totalidade os termos de um acordo anterior assinado em 2000, em Argel. O restabelecimento da paz entre eles significa que a Etiópia terá acesso garantido ao mar através dos portos de Assab e Massawa, no Mar Vermelho;  vão igualmente reabrir as suas embaixadas nas respectivas capitais, permitindo a livre circulação de pessoas e o reatamento de voos.

Outra zona de conflito na região é a Somália. A guerra da Somália teve o seu início em 1986, quando o antigo presidente do país, Mohamed Siad Barre, lançou uma série de ataques contra clãs que se opunham ao seu governo. Barre viria a ser derrubado em Janeiro de 1991, provocando uma desintegração completa do país, com algumas das suas regiões a serem controladas por vários grupos rivais. Foi no meio destes combates que a Somalilândia, uma parte do país que antes estivera sob controlo britânico, decidiu separar-se do resto da Somália, declarando-se um território independente, mas sem qualquer reconhecimento por parte da comunidade internacional.

Desde 1991, a Somália tem provado ser um dos maiores desafios do sistema político internacional, com um conflito que vai tomando vários contornos, colocando em causa a segurança de toda a região do leste de África. Em Dezembro de 1992, a ONU aprovou uma resolução para o estabelecimento de uma força conjunta internacional, liderada pelos Estados Unidos, e que visava coordenar o apoio humanitário à população civil vítima das confrontações entre milícias rivais, e ao mesmo tempo tentar restabelecer a paz.

Mas a morte de mais de 30 soldados americanos, em 1993, em combates contra as milícias locais, determinaram a retirada do contingente da ONU em 1995. Desde então, a Somália ficou entregue à sua própria sorte. Abandonada pela comunidade internacional, tornou-se palco de combates de facções rivais, ao mesmo tempo que a ausência de uma autoridade central e coesa alimentava os apetites de grupos independentes ligados ao terrorismo internacional e inspirados no radicalismo islâmico.

No dia 7 de Agosto de 1998, surgiram as primeiras acções terroristas fora da Somália,  que conduziram aos atentados simultâneos contra as embaixadas dos Estados Unidos no Quénia e na Tanzânia, resultando na morte de mais de 200 pessoas.

Os ataques focalizaram, pela primeira vez, a atenção dos Estados Unidos sobre o grupo terrorista da Al-Qaeda, então dirigido por Osama Bin Laden. A Al-Qaeda na Somália transformou-se num grupo hoje conhecido por Al-Shabaab, que tem desenvolvido as suas operações não só naquele país, mas também na Etiópia, Quénia e Tanzânia. Entre 2008 e 2015, o grupo realizou um total de 272 ataques contra o Quénia e cinco contra a Etiópia, e suspeita-se que seja o mesmo que tem tentado alastrar as suas acções para Moçambique, onde terroristas inspirados no radicalismo islâmico têm realizado ataques contra populações civis desde o dia 5 de Outubro de 2017, na província do Cabo Delgado, na fronteira com a Tanzania.

Dois dos maiores ataques do grupo no Quénia mereceram a atenção da comunidade internacional. O primeiro teve lugar Setembro de 2013 contra o centro comercial de Westgate, em Nairobi, resultando na morte 71 pessoas. O segundo foi em Abril de 2015, contra a Universidade de Garissa, no nordeste do Quénia, com um saldo de 147 mortos. A situação na região tem sido motivo de grande preocupação não só da parte por parte dos governos dos países da região, mas também de outros Estados contíguos, dado que, como o caso de Moçambique bem demonstra, existe o perigo de alastramento de acções para fora dos centros tradicionalmente conhecidos como bases de grupos terroristas.  Alguns analistas acreditam que existe um movimento internacional com o objectivo de instalar células do radicalismo islâmico em vários países africanos, através da subversão das práticas tradicionais desta religião nesses países.

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