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Artesanato Uma feira nos arredores da cidade

| Editoria Opinião | 20/11/2018

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Por J. A. Rangel

Estão há mais de três anos no Morro dos Veados, depois de 25 anos de felicidade no bairro Benfica. Os feirantes queixam-se que foram “empurrados” para um lugar imprório para o comércio da sua arte. Negócio certo em sítio errado.

NÃO SE VOLTA AO LUGAR onde se foi feliz – diz o ditado popular, mas os feirantes da Feira de Artesanato do Morro dos Veados, nos arredores da cidade de Luanda, não se importam de voltar ao antigo lugar, no bairro Benfica, para serem felizes… outra vez. “Aqui, não estamos felizes”, desabafa mestre José Nkosi. A distância é o calcanhar de Aquiles, a pedra no sapato dos feirantes. Situado a cerca de 20 quilómetros do centro da cidade, a feira é um manancial de problemas. A estrada estreita e perigosa de várias curvas, dificuldades de transporte, custos de logistica – tem tudo para afastar os clientes e exasperar os vendedores.

A infraestrutura não deixa de ser boa e o local, situado na estrada que vai à barra do Cuanza, paisagístico. Ao longe, a enorme língua do Mussulo; o mar domina a paisagem; o Museu da Escravatura (um edifício de cor branca, quadrado, austero, em cima do Morro da Cruz) dá um ar de importância ao local; o cais do catamarã empresta um quê de urbanização à feira. Esta é um edifício grandioso: comporta auditório, armazém, oficinas, restaurante (com piscina), WC (encerrados), zonas de exposição, parque de estacionamento, um mercado de comes-e-bebes para os visitantes. O problema está na sua praticalidade. A distância coloca os clientes fora de rota e deixa os artesão e expositores em “calças justas”. “Eles compram mais facilmente no aeroporto ou no Espelho da Moda”, repara mestre Beni. Pela mesma nota toca o mestre Inácio: “O artesanato tem de ficar na cidade, não no meio de nenhures”. Este nato do Soyo, com 29 anos dedicados ao artesanato, desfia um rosário das dificuldades. “Não chamaram os artistas para opinarem sobre o projecto”, acusa apontando o dedo a quem gastou uns milhares de dólares para fazer uma feira que não funciona. O mestre embala na ladainha da moda corrigir o que está mal e no propósito sacramentado da diversificação da economia “com base no artesanato”, politiza.

Sendo a maior feira de artesanato do país, ela foi dada aos artesão da antigo feira do Benfica como um presente, só que envenenado. “A primeira preocupação é com o tecto”, aponta mestre Beni que vê neste factor a mãe dos principais problemas. O sol, inclemente, se abate sobre as peças de madeira rachando-as, tirando o brilho delas, desconservando-as. A chuva, a poeira e o vento são os outros inimigos declarados dos expositores e dos seus produtos artesanais. “Gastamos muito dinheiro para minimizar os estragos que eles fazem”, queixa-se José Nkosi. E já perderem a conta das lonas que comparam para proteger as peças da acção nefasta destes “inimigos” poderosos. “O vento está constantemente a derrubar as peças que racham ao cair no chão” e aponta para um amontoado de peças danificadas e desconservadas.

“Não há condições”, não tem dúvida mestre Inácio. “Não temos segurança”, entra de sopetão na conversa um feirante, como quem coloca mais achas na fogueira; ele queixa-se de roubos e vandalismo a que estão sujeitos. Os rostos são a expressão da impotência. Há um sentimento de frustração, um clima de insatisfação a rondar o local. Ninguém está contente por estar ali.

Para evitar gastos desnecessários com transporte e alimentação, mestre Beni trabalha no seu ateliê, algures no Sambizanga, durante a semana. Aos sábados e domingos marca presença na feira, que é quando a clientela comparece em número razoável. “Aqui, o negócio vai mal. Não é como no Benfica”, diz com tristeza. Perguntado se gostaria de voltar ao antigo lugar, o mestre inspira fundo, faz uma pausa e diz, tentando evitar que a voz trai o pensamento: “Hoje mesmo vamos, todos!” Há nele um ar de nostalgia e de sofimento; os olhos crispam-se, a expressão ausenta-se para… algures.

Clientes

São cerca de 500 os feirantes com registo na Feira de Artesanato do Morro dos Veados. Quando um cliente chega, centenas de olhos se voltam para ele. Os (poucos) compradores são conquistados através de um marqueting sedutor. São recebidos com carinho, apaparicados com sedução quase a roçar ao assédio.

Quatro chinesses, um brasileiro, um português, uma trupe de duas angolanas e três europeus e um grupo “internacional” composto de um iraniano, um casal de venezuelanos com três crianças fazem a clientela do momento. Os chinesses interessam-se por peças de marfim; o casal venezuelano quer peças pequenas em madeira (o Pensador é o escolhido), o brasileiro (com ares de coleccionador experiente e acompanhado de um angolano) mostra-se regateador de preços. Mestre Inácio prefere clientes nacionais a estrangeiros. “Os angolanos são os que compram as peças grandes [mais caras] e os estrangeiros as mais pequenas”, elucida com sabedoria o artesão. Essa preferência dos estrangeiros tem que ver com o evitar complicações alfandegárias no aeroporto.

“Como vê, não vendas!”, atira mestre Inácio e com o olhar abarca os clientes e as milhares de peças expostas. E há uma imensidão de peças trabalhadas em pau-preto, pedra malaquite, madeira panga-panga, pau-rosa, pau-ferro, marfim, ferro etc. O tamanho delas variam da pequenita peça à do tamanho de um homem médio. O inevitável Pensador, a mucubal, a mumuila, o soba, a rainha Ginga, jacarés, elefantes, tartarugas, girafas, macacos, muitos e muitos artigos do artesanato nacional são abarcados pelo olhar instropectivo de mestre Inácio. O sol faz uma aparição de chofre, o vento sopra forte, a poeira domina o espaço. Mas ele parece não se importar…

Os feirantes são os próprios autores das peças expostas, mestres de um ofício que conheceu melhores e coloridos dias. Foi no Benfica onde, por mais de 25 anos, orgulhosamente exerceram o seu míster com felicidade e o negócio era rentável. Será que se pode voltar a um sítio onde já se foi feliz??!!

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