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IGNORÂNCIA É MESMO FORÇA?

| Editoria Opinião | 20/11/2018

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                                                           Por Muniz Sodré

     “Ignorancialismo”.

Esta palavra inexistente em dicionário me foi sugerida por um colega de universidade para designar  ––  aparentemente, com mais propriedade do que fascismo –– o clima político do Brasil e suas conseqüências eleitorais. No início achei a expressão apenas engraçada, algo que “tem piada”, como costumam dizer os meus amigos portugueses. Depois, ocorreu-me uma passagem do célebre “1984”, em que George Orwell imagina um “ministério da verdade”, com três divisas: “Guerra é paz”, “escravidão é liberdade” e “ignorância é força”.

 Como preliminar,  vale lembrar a advertência escrita de Umberto Eco sobre o “fascismo eterno”, uma virtualidade que não esgota. De fato, fascismo é tanto uma situação societária historicamente marcada quanto um padrão existencial, em que prospera o aprofundamento da dominação de um “outro” imaginado. Caracteriza-se, assim, como um nebuloso potencial de destruição das liberdades constitucionais e do respeito às diferenças, capaz de irradiar-se além dos limites partidários e geográficos.

Por isso, talvez se deva falar do que vem ocorrendo como um “protofascismo”, isto é, um fenômeno sem a convicção que ainda vestia partidariamente o movimento clássico, mas com angústia de sobra: é um inquietante tropeção no fio transformador da História. É o que incita continuamente os estratos médios e baixos das classes sociais à produção do ódio como reação sistêmica à dinâmica progressista dos movimentos coletivos.

Ontem como hoje, essa situação reflete o medo coletivo –– logo, uma paixão política negativa diante de transformações e passagens aceleradas, como bem transparece numa formulação de Gramsci: “O velho mundo morre, o novo mundo demora a aparecer, e no claro-escuro surgem os monstros” (Cadernos do Cárcere, 3/184). Trata-se, assim, de uma forma ambígua, refratária à racionalidade das opiniões, que se alimenta de emoções brutas, ao modo de uma religião política a serviço de um processo degenerativo: uma religião apoiada na linguagem universal do ódio, capaz de acomodar-se perfeitamente à individualidade narcísica que emerge e se protege na rede eletrônica.

Essa confluência entre ódio real e mundo online é alavancada pelo que exprime aquela palavra de ordem da distopia orwelliana: Ignorância é força. O caldo de cultura da onda protofascista foi aos poucos canalizado para a internet, dando vez a uma insólita microparticipação política, em que argumentos e debates são substituídos por posts, tuítes ou breves comentários,  propagados a milhares ou milhões nos circuitos eletrônicos das redes.

Internet é apenas a forma mais atualizada da mídia em sentido amplo, responsável pelo longo desregramento frente aos cânones dos costumes e das letras, que autores recentes chamam de pornocultura, ou seja, uma estética difusa guiada por um tipo de centralidade obscena do corpo e das emoções, assim como pela obsolescência da fórmula cartesiana [“eu penso”] sobre a qual se erigiu em grande parte o esplendor da cultura moderna. Porno (do grego pernemi, que significa “eu vendo”) é vetor de uma cultura que se mercantiliza sem limites.

Vem daí o rebaixamento de formas culturais, entendido como a simplificação ou redução de complexidades formais em benefício da mercantil facilitação comunicativa. Tudo parece caminhar junto com a velocidade informacional na direção do “mais fácil”, quaisquer que sejam os seus níveis de política ou de moralidade. Como num reality show de televisão, quanto mais baixa a qualidade humana, maior a audiência.

 Opera-se em níveis diversos: desde as fórmulas mais rebarbativas até formulações para-literárias ou simulacros de pensamento culto, que se multiplicam nos best-sellers de auto-ajuda. Este é um fenômeno igualmente “porno” no sentido mercantil do termo, em que o “eu penso” cartesiano é substituído pelo “eu curo” samaritano.

Emoções brutas sem reflexão nem lucidez traduzem a pura e simples ignorância da complexidade vital. No entanto, essa é a matéria orgânica das redes sociais capitalizadas pelo protofascismo, em que mídia, empresários milionários e pastores fundamentalistas se deram as mãos, num diálogo de surdos, para eleger o pólo de cristalização do autoritarismo. O subterrâneo algorítmico das redes digitais é a nova máquina de forjar o imaginário do povo. Não há como deixar de dar razão a Orwell: Ignorância é mesmo força.

 

   

 

    

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