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A Corrida para a Europa

| Editoria Cultura | 20/11/2018

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Nicole Guardiola

A tradução portuguesa do título do último livro de Stephen Smith - «A Corrida para a Europa» - não contempla a noção de tumulto, precipitação eventualmente violenta, presente na palavra francesa «ruée». O subtítulo «A jovem Africa em marcha para a velha Europa» já é mais explicito. A escassos meses de eleições europeias que terão o tema das migrações, ambos são um piscar de olho aos populistas que surfam sobre o medo de uma alegada «invasão» do Velho Continente por multidões de jovens vindos do Sul

Embora os Africanos em geral, e os subsaarianos em particular, estejam longe de constituir a maioria do fluxo de migrantes chegados ás costas do sul da Europa nos últimos anos, é a eles que o ex-jornalista, hoje professor de «Estudos Africanos» da Universidade Duke, da Carolina do norte, se refere quando fala da «africanização da Europa», para ele inelutável num futuro próximo. Segundo Smith, é a demografia que impõe esta previsão: ao ritmo atual, os negros africanos serão 2 500 milhões em 2050 e nesta altura, os «euroafricanos» representarão 25% da população do Velho Continente, cerca de metade dos menos de 30 anos. Uma afirmação bombástica, que coincide com as declarações do presidente francês Emmanuel Macron sobre «as africanas que fazem demasiados filhos» e justificam – em parte – os elogios oficiais e mediáticos ao autor e ao seu livro, já traduzido ou en via de sê-lo em inglês, alemão, espanhol (mas não em português).

Não é a primeira vez que Stephen Smith suscita a polemica … e um sucesso de vendas. Já em 2003 o seu livro «Negrologie. Pourquoi l´Afrique meurt» (Negrologia – Porque a Africa Morre) tinha provocado uma tempestade de protestos, em Africa e na diaspora. O ex-jornalista, que reivindica 20 anos de experiência africana, afirmava, entre outras coisas que a Africa Negra «se suicida» porque os africanos, em vez de remar para sair da miséria continuam a furar a frágil canoa em que navegam, ou ainda que «Africa seria rica se não fosse povoada por africanos»

Treze anos mais tarde, Stephen Smith admite a «emergência» africana que julgara impossível  mas é para transformar este progresso – relativo – em «ameaça» para a Europa  A razão principal é que  a «classe media» ou modestamente «remediada» africana é – segundo Smith, aberta ao mundo e mais propensa que os pobres a largar as amarras para «viver como os brancos». E o pior é que este «êxodo» dos mais formados, empreendedores e criativos, puxa Africa para atras em termos de desenvolvimento económico e democrático. A culpa é, de novo, dos africanos  que fogem, em vez de mudar a ordem – política, económica, social e moral – imposta pela «gerontocracia» que domina os seus países.  

Mas não é por masoquismo que se recomenda a leitura da «Corrida para a Europa». O livro está cheio de informações, objetivas e bem articuladas, sobre as migrações africanas, as suas causas e as estratégias imaginadas pelos governos – europeus e africanos – para fazer frente ao fenómeno.

Para apoiar a sua própria tese Stephen Smith coloca a geografia humana e a demografia no centro da história da mundialização em curso, o que representa uma inovação e não apenas para o grande publico. Releva que «Na bibliografia entregue aos doutorandos da SAIS da Universidade John Hopkins de Washington para constituir o fundo de conhecimentos de um futuro especialista em temas africanos 212 livros tratam de economia, 63 de questões étnicas, 34 de assuntos religiosos, e apenas 2 de demografia» (pag.31).

Os dados – e são muitos – são cuidadosamente escolhidos e verificados, mesmo se o autor tem a honestidade de lembrar a fragilidade das estatísticas africanas, “onde a falsidade é apenas uma província do vasto império da má-fé». Sobre as relações entre a  explosão demográfica africana – cujo inicio situa entre as duas guerras mundiais do seculo XX e é a mais rápida de toda a historia da humanidade -  e a alegada «incompetência», «corrupção» e «má governação» dos dirigentes dos estados africanos pós-coloniais, Smith admite que «numa sociedade em que gerações cada vez mais numerosas se sucedem como as ondas sobre a praia (…) as habitações, escolas, hospitais, estradas serão sempre submersos (…)nunca haverá bastante para todos». Ou quando observa que os «estados falhados» ou «fantasmas» devem  a sua longevidade as «oportunidades de negócio» que proporcionam a todo o tipo de agentes exteriores, das instituições internacionais ás ONG e das sociedades privadas ás redes de traficantes mais ou menos mafiosos.

Não menos surpreendentes são alguns dos dados relativos aos migrantes e as migrações, como, por exemplo o custo de uma viagem da Africa Ocidental até a margem sul do Mediterrâneo, nunca inferior a vários anos de salário mínimo; ou a fuga de capital que representa, para um pais africano a perda de um medico, que parte se instalar no Reino Unido, Portugal ou Alemanha.

Ou ainda a sobrevalorização mediática, para efeitos políticos, do drama dos migrantes que perdem a vida no Mediterrâneo para fugir do «inferno» de Africa. Lembra Smith que em 2015, ano do «pico» da «crise migratória»,1 015078 «ilegais» alcançaram o sul da Europa e  3771 foram registados como mortos ou desaparecidos durante a travessia, ou seja, 0,37%.«No mesmo ano segundo o Banco Mundial, o risco para uma mulher de morrer de parto no Sudão do Sul era de 1,7%» ou seja 4,5 vezes maior.

São igualmente interessantes as informações sobre a diaspora africana na Europa, o seu papel , a sua evolução e o alegado «choque cultural» na origem da rejeição e das políticas anti migratórias. Um dos aspetos mais problemático é o religioso, que a  extrema-direita e os populistas identificam com uma suposta conspiração para «islamizar a Europa». Stephen Smith observa que os cristãos africanos ainda maioritários ao sul do Sahara abandonam  cada vez mais as igrejas tradicionais de matriz europeia – católica, anglicana, luterana ou calvinista, para aderir em massa as igrejas evangelistas,pentecostistas ou «born again» de cunho americano. Ora, segundo ele, estas igrejas neocristãs incentivam a  emigração porque sacralizam o enriquecimento individual – tido como uma graça divina – ao mesmo tempo que permitem aos jovens e as mulheres, cidadãos de segunda,  de se libertar, de bíblia na mão, da tutela dos «mais velhos», da família e do clã. Socialmente conservadoras, estas igrejas, que condenam a contraceção, o aborto, a homossexualidade e são militantemente islamofobas ameaçam igualmente as tradições, africanas e europeias.

Por outras palavras «A corrida para a Europa» proporciona informações e pistas de reflexões sobre Africa . As angustias existenciais do seu autor só a ele dizem respeito.

 

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