Publicidade

Publicidade

Publicidade

África 21 OnlineÁfrica 21 Online

Registre-se na nossa newsletter e mantenha-se informado.
África 21 no Facebook

África 21 Online

Pesquisa

Siga o portal África 21

Feed RSS Twitter Facebook

Edição Impressa

Edição do Mês

Destaques da edição de Agosto de 2019

ÁFRICA

EXPLOSÃO DEMOGRÁFICA EM ÁFRICA, UMA BOMBA AO RETARDADOR

ÁFRICA

O PARADIGMA PARTICULAR DA DEMOGRAFIA VERSUS DESENVOLVIMENTO

ANGOLA

EXPLOSÃO DEMOGRÁFICA UMA BOMBA DE EFEITO RETARDADO

EUROPA

O PESADELO DEMOGRÁFICO QUE ASSOMBRA A EUROPA

MOÇAMBIQUE

POR ALGUNS DÓLARES MAIS

MUNDO

MUDANÇAS CLIMÁTICAS PODEM ENGENDRAR “APARTHEID GLOBAL”

VENEZUELA

O CAPCIOSO RELATÓRIO BACHELET

ÁFRICA

RUMO A UMA ÁFRICA INTEGRADA E PRÓSPERA

Rádio

Publicidade

Opinião

Homenagem a um raro cavalheiro - Kofi Annan

Carlos Lopes | Editoria Opinião | 26/06/2019

-A / +A

Imprimir

-A / +A

 

Por: Carlos Lopes

Ele poderia dar toda a sua atenção a uma pessoa por apenas alguns segundos e ainda assim deixá-la com a sensação de que era importante. Esta é uma qualidade que se reconhece em poucos indivíduos. É emocional e profundo. Isso porque as pessoas que ocupam posições poderosas costumam transmitir mais a arrogância e a impaciência. Não deixa de ser verdade que certas personalidades são bastante ocupadas, o que explica o seu tempo limitado para gentileza ou conversa fiada. Esse é o comportamento normal que você espera dessas pessoas. Mas existe também o estilo Kofi Annan.

De papa laico a astro da diplomacia, de um laureado do Prêmio Nobel à chefia tradicional, Kofi Annan estava acostumado a títulos, glamour e reconhecimentos de todos os tipos. No entanto, tal atenção não fazia subir o tom da sua voz. Ali estava um jogador sofisticado capaz de melhorar sua estatura, fazendo o oposto: restringindo suas aparências, demonstrando humildade e diminuindo os decibéis quando falava com os poderosos ou os vulneráveis. Quase todos os que cruzaram essa combinação rara de charme e equilíbrio ficaram conquistados. Um cavalheiro raro que transmitia educação nobre e polidez natural.

Esse arquétipo de personalidade sendo tão singular, não é surpreendente que todos os que o atravessaram o seu caminho achassem que o conheciam. De fato, de uma maneira estranha, eles tinham razão. Às vezes mesmo vendo-o por apenas alguns segundos, logravam conectar o homem com sua persona pública, tão detetável e discernível.

Para os atores da ONU - diplomatas, funcionários, enviados especiais ou media - essa conexão era ainda mais forte. Ele era “o seu” Secretário-Geral, alguém acessível, sincero e capaz de reconhecer os seus erros ou os da organização. Ele era quase previsível no seu comportamento.

Eu, como muitos outros, conheci o Kofi Annan ao longo do tempo, em vários escalões de sua carreira na ONU. Ao refletir sobre o passado de quando em vez, junto recordávamos três momentos que marcaram a nossa conexão.

Como Coordenador Residente da ONU no Zimbábue, tive a chance de dar as boas-vindas ao Secretário-Geral numa histórica Cimeira da União Africana em 1997. Quando o avião parou ao lado do tapete vermelho na área VIP do Aeroporto de Harare, entre outros voos de dignitários importantes, podia-se facilmente desculpar a confusão de protocolo, ainda mais com a chegada simultânea de um chefe de Estado compartilhando o mesmo voo e descendo as mesmas escadas. Kofi Annan era tão popular que muitos dos presentes corriam para apertar sua mão no meio de bailarinos tradicionais, desfile militar numa confusão cacofônica. Visivelmente perdido em termos protocolares, procurando por uma referência, seus olhos finalmente me localizaram na multidão. Com a sua minúcia diplomática, cumprimentou-me em voz baixa, enquanto perguntava com irritação visível onde estava o Coordenador Residente, seu representante. Eu respondi: "Sou eu!" Era minha maneira de, também diplomaticamente, lembrá-lo da nossa conexão. Conhecíamo-nos desde que ele era o chefe de recursos humanos na ONU. Na época, morávamos ambos na Ilha Roosevelt, em Nova York. No asfalto daquele aeroporto, ele estava desculpado pela confusão não esperando que um jovem de 37 anos, para além do fato de ser seu conhecido, pudesse ser o Coordenador Residente. Costumávamos rir desse qui pro quo.

O segundo momento marcante da nossa conexão não era motivo de riso. Um dos melhores amigos de Annan e respeitado membro da direção da ONU, Sérgio Vieira de Mello, morreu vítima do atentado à bomba contra o complexo da ONU em Bagdad, a 19 de agosto de 2003. Após numerosas mudanças nos planos fúnebres entre familiares e o governo brasileiro, a decisão foi finalmente tomada de que uma cerimônia de Estado seria organizada em honra do defunto na sua Rio de Janeiro natal. Eu era então Coordenador Residente da ONU no Brasil, desta vez indicado por Kofi Annan. Ele tinha o hábito de me perguntar informalmente sobre a situação no Brasil e uma série de outras questões.

Annan chegou ao Rio para prestar a sua homenagem ao amigo quase um dia inteiro antes das cerimônias fúnebres. Senti a necessidade de organizar algum tipo de programa para o ocupar, mas ele não mostrou disponibilidade. Insisti em pelo menos um curto voo de helicóptero para ver a beleza pacífica da cidade, a partir do céu, oferta que ele finalmente aceitou. O governo ficou satisfeito em poder oferecer esse gesto de amizade em sua honra. Em pleno voo sinalizei a favela da Rocinha, de que ele tinha ouvido falar tanto. Disse-lhe que meu amigo Ministro da Cultura e famoso cantor, Gilberto Gil, tinha um projeto social nessa favela. Foi o começo de uma conversa que terminou com o Gilberto Gil e o próprio Kofi Annan tocando juntos no Salão da Assembleia Geral da ONU em homenagem à vida excecional de Sérgio.

O terceiro momento das nossas recordações perenes era relacionado com o modesto começo da Fundação Kofi Annan, em Genebra. Lembrado pela modéstia de meios e as pequenas coisas necessárias para estabelecê-la. Annan me lembrava com modéstia o seu tempo de estudante naquela cidade, onde partilhávamos a mesma alma mater, o Graduate Institute de Genebra, onde passamos pelas mesmas rotinas incomuns tipicamente locais daquela cidade. Em 2007 eu estava de volta a Genebra para liderar o Instituto de Treinamento e Pesquisa da ONU (UNITAIR), depois de ter servido no 38º andar da sede da ONU – como é conhecido o centro nevrálgico da organização em Turtle Bay, Nova York. Nunca soube se meu desembarque no UNITAR teve as suas impressões digitais. Como muitas pessoas que ele ajudou ou protegeu a sua regra número um era a discrição. Mas, seguramente, ficamos felizes por poder continuar trabalhando juntos nas mesmas causas e por muito mais tempo. Embora este seja um tributo pessoal, estou convencido de que muitas pessoas têm histórias semelhantes desse personagem imponente. Tocou profundamente todos aqueles que tiveram a chance de cruzar o seu caminho.

Imprimir

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Siga o portal África 21

Feed RSS Twitter Facebook
África 21 Online

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade