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CACIMBAS

Luís Carlos Patraquim | Editoria Opinião | 19/08/2019

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Convém cobrir a cabeça. Elas são danadas. Chegam antes dos ventos de Setembro, noturnas, devagorosas, gotejantes, em fiapinhos invisíveis,verificáveis no tejadilho dos Ferraris e dos chapas, nos heliportos dos edifícios high-tech, nos debruados e kitsch varandins dos palácios gordos, de imitação, nos telhados de zinco, na inchação dos colmos, nos panos dos quintais. Minuciosas, precisas, poisam nas folhas das árvores, nas mínimas pétalas das flores.

Cacimba, cacimbas, substantivo feminino. Todo o cuidado é pouco. Não por causa do estafado “eterno feminino” , talvez galanteio ou preconceito, certamente frase feita com laivos ente o arroubo, o medo com que uma certa cultural patriarcal se diverte ou defende.

Nenhum discurso, com plenário laudatório e minoria crítica, se faz ao relento porque isso seria um truísmo. Pela simples razão que de são quase todos cacimbados, descem das nuvens, são nuvens, um mar de palavras que se evapora, quentoso de imaginações enrodilhando a realidade, espiralando-a para as humidades das alturas ,embaciando os lustros imóveis,  por vezes palustres, caindo nas cacimbadas cabeças que têm mãos na extremidade dos braços que estão presos aos ombros que não carregam o mundo e depois as mãos batem palmas, um clap cap clap de balão de banda desenhada espargindo gotículas, bactérias devoristas muitas, Nesses ambientes não é de bom tom cobrir as carecas. Elas estão implícitas.

Orvalho e relento em certos pontos de África, diz o dicionário; ocasião em que elas veem, cova ou poço em que se junta a água paludosa; poço que recebe a água pluvial filtrada pelos terrenos circunjacentes e que é utilizada pelas populações. Convém observar que só há populações onde não existem palácios, mansões, condomínios fechados.

Preocupa-me a ocasião em que aparecem e se precipitam, em morrinha como dizem os galegos, mas que nos nossos lugares a mais das vezes se acomodam nas covas macilentas como uma pele líquida, doente, paludosa.

É à volta das cacimbas-poços que o chuá-chuá das populações comenta a baba em que muitas palavras se transformam. Um líquido viscoso, é de ver, adstringente, salgado, resultante das máquinas endócrinas que a excretam por um sistema de canais que a teoria política inscreve no que se chama aparelho de Estado. Na noite ouvem-se os grilos e uma vermiosa cultura, porém dissimulada, empesta o ar, conspurca os ventos, infecta os brônquios, incha de nada a barriga proeminente dos mwanas. Só o rebentar das águas nos partos das mulheres se escusa à contaminação porque é o momento jubiloso da criação exposta, a que se ergue em choro, em haustos de legitimidade sorvendo a vida que começa.

Será isto tudo a vida nua? Haverá respostas. Os filósofos, cuja propensão é sobretudo interrogativa, tentam a aproximação à Verdade. Mas por onde andará ela, mamba coleante entre os canaviais, sábia o suficiente para se acoitar na noite fria.

Aos cacimbados de sonho, de mazelas, de resiliências, não obstante a osteoporose, a tosse, os panos e os cubicos onde se acoitam, sobra o tempo, os muito maneirames de desenrrascar a vida, de fazer crescer com olhos grandes de ver, mais do que olhar, esses mwanas que um dia serão, a mais das vezes, os “governadores do orvalho”, não obstante investidos da dignidade que os acolham, que são no mundo roubado..

Saudemos, porque é preciso, as cacimbas belas dos ciclos ecológicos, da respiração dos deuses que as espargem, as que brilham nos luanes entre as clareiras, as que fazem sonhar e escrever os andarilhos que as vislumbram nos longes da savana, sua planura alta de silêncios e do convite às mãos, ao engenho de as encaminharem para o culimar dos frutos emergentes, as que humedecem a palavra que se cumpre. Nuvens terrestres dos ciclos da terra onde os homens se recusam a cevar os despojos do que os teatros do poder descartam, vazam, dejectam.

Talvez a mudança dance coreografias ainda invisíveis. Uma criança passa a correr com seu gancho de arame no arco que rola, célere, entre o labirinto das casas precárias, do atolar do lixo, do refugo dos produtos nas bancas pejadas de cores, e grita para dentro “mãe, mãe, mãe!”. Talvez ninguém consiga desfazer a beleka da ternura. Talvez a vida não esteja tão longe, para além dos lustros cacimbados do verdete da sua precária duração. 

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