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Entrevistas

“Estamos bem acompanhados na CPLP”

| Editoria Entrevistas | 30/07/2013

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Timor-Leste vai assumir a presidência da CPLP no biénio 2014-2016 no segundo semestre do próximo ano, depois da Copa Mundial de Futebol no Brasil. Nesta entrevista, Taur Matan Ruak responde por escrito às perguntas enviadas pela redação da África21. Fala da CPLP, mas também da situação atual do seu país, onze anos depois da Restauração da Independência.

«Só conseguiremos desenvolver uma economia dinâmica e produtiva com a participação dos setores mais ativos e inovadores da sociedade, que são os jovens»
António Amaral/Lusa

ÁFRICA21 - Timor-Leste assume a Presidência da CPLP em 2014-2016. O que significa para os dirigentes e, também, e sobretudo para o povo? Há o sentimento de pertencer a uma comunidade que além de ter ajudado à independência pode significar um caminho para o futuro?

TAUR MATAN RUAK - A Presidência da CPLP que os países irmãos decidiram confiar-nos é uma nova responsabilidade no percurso de integração internacional e regional que Timor-Leste vem realizando. A confiança honra-nos muito e este sentimento é, claramente, partilhado pela generalidade dos timorenses.

- A pertença à CPLP mostra que estamos bem acompanhados por países amigos, com quem nos identificamos por muitas razões. Entre estas, a mais atual é que a CPLP reúne um conjunto de povos com quem temos grande proximidade de níveis de desenvolvimento, além de sólidas relações de confiança, que nasceram da história e da luta comum. Mas há outras afinidades, nomeadamente culturais. A integração de Timor-Leste na CPLP e a nível internacional, bem como a integração regional, tem sido muito bem-sucedida. Sublinho-o porque, pensando bem, foi realizada em escassos 11 anos, desde a Restauração da Independência.

- A relação é ainda essencialmente com Portugal ou há laços com o Brasil e África?

- Temos relações de grande entendimento e cooperação com todos os países da CPLP, sem exceção, e uma cooperação mais intensa com Portugal e o Brasil.

- O trabalho de técnicos com origem em países da CPLP tem contribuído para realizarmos as nossas prioridades, no setor da Justiça, generalização da Língua Portuguesa, desenvolvimento das instituições de Defesa e Segurança, Agricultura e outras.

- Muitos cooperantes vêm de Portugal e Brasil, sobretudo em ações de cooperação bilateral. Outros vêm de Cabo Verde, Angola, Guiné-Bissau, Moçambique, etc., principalmente na cooperação multilateral com as Nações Unidas e suas agências especializadas. Esta participação contribui para aprofundarmos o conhecimento mútuo e estabelecer novos laços entre pessoas de diferentes países irmãos.

- Já afirmou que a Língua Portuguesa veio para ficar. Como se gere este paradoxo de ter o português como língua oficial, mas tão poucos falantes?

- A Língua Portuguesa foi uma verdadeira ferramenta de trabalho na ação da resistência armada, durante os 24 anos da luta e hoje o português é a língua oficial mais usada em vários setores, da Justiça ao Conselho de Ministros e outras instâncias do Governo, ao sistema educativo, onde é a língua veicular do ensino, etc. É verdade que uma geração de timorenses cresceu e formou-se isolada do contacto com o português. Mas isso não impede que esta seja a língua que mais timorenses ambicionam dominar, lado a lado com o tétum, a língua nacional. Essa ambição não se realiza de repente, mas a generalização da língua é realizável no decurso de uma geração. Estamos a caminho.

- Timor-Leste deseja, nomeadamente, aprofundar a cooperação multilateral com a CPLP na área da língua. É uma das áreas em que a nossa organização pode fazer a diferença e intensificar a sua influência.

- Na sequência da sua eleição à Presidência, o orçamento de 2013 foi aprovado por unanimidade. É este o caminho? Timor-Leste tem um governo de união nacional? Não há oposição?

- O consenso em torno do Orçamento de Estado indica que há convergência entre a maioria que apoia o governo e a oposição, relativamente às prioridades nacionais de infraestruturação e desenvolvimento social e económico. 

- Esse consenso, francamente, não devia surpreender. Em pouco mais de uma década, conquistámos a paz, fizemos a reconciliação, reforçámos o sistema democrático, de forma muito viva e participada. É natural que, quando entramos numa nova fase da construção nacional, haja unidade no essencial e os líderes se ponham de acordo sobre aspetos chave, como a urgência de infraestruturar o país, investir nos recursos humanos, criar polos de desenvolvimento regionais e dinamizar a economia. São estas prioridades que o Orçamento de Estado consagra.

- A capacidade de estabelecer pontes de diálogo interpartidário e cooperação é uma das virtudes da democracia e um sinal de maturidade. Mas a convergência em torno de aspetos essenciais não impede a oposição e o Parlamento de exercerem a sua competência fiscalizadora e pedirem contas ao governo.

 - Integração regional e entrada da ASEAN. Como estão as relações com os países vizinhos, sobretudo Indonésia, Austrália, mas também com China? 

- Temos relações excelentes com esses países e com outros. Desenvolvemos relações de amizade, trabalho e cooperação sólidas com a Indonésia e a Austrália, os nossos vizinhos imediatos, e com os Estados Unidos, a China e outras potências asiáticas e do Pacífico, como o Japão, a Coreia do Sul e a Nova Zelândia. Desenvolvemo-las também com potências europeias e, diretamente, com a Comissão Europeia, que abriu uma delegação de representação em Díli e tem um vasto programa de cooperação com Timor-Leste. Apresentámos a candidatura do nosso país a membro pleno da ASEAN, a Associação de Nações do Sudeste Asiático, que reúne todos os países da nossa região natural e iremos apresentar um pedido de adesão à Commonwealth, porque Timor-Leste deve fazer ouvir a própria voz nos fora relevantes para o interesse nacional. 

- Os desafios atuais que vemos – na região e no mundo – requerem cooperação e respostas concertadas. Esta realidade também pertence à dimensão da CPLP, uma vez que o futuro da CPLP está permanentemente em aberto, digamos, sendo uma organização dinâmica, um projeto em desenvolvimento. A dimensão da CPLP é aquela que os países membros desejarem conferir-lhe. 

- Pequeno país rodeado de gigantes, que papel pode desempenhar Timor numa região que é uma das mais dinâmicas do mundo? A originalidade cultural, linguística, religiosa, de Timor em relação aos vizinhos – Indonésia e Austrália – é uma vantagem ou um obstáculo à integração regional? 

- Na nossa região há outros países pequenos, muito bem-sucedidos. Timor-Leste deve inspirar-se nesses exemplos e provar, mais uma vez, que a determinação e espírito de sacrifício dos povos é um motor poderoso da ordem internacional dos nossos dias.

- O nosso papel é contribuir para a estabilidade e a segurança, como condições fundamentais para aprofundar a paz e desenvolver o país. Somos parte de vários processos multilaterais regionais relevantes nesta área e trabalhamos com os vizinhos para aprofundar o ambiente de desenvolvimento e prosperidade na região.

- A dimensão ou a diversidade cultural não são impedimentos ao desenvolvimento de relações baseadas no respeito entre Estados e na cooperação mutuamente vantajosa. O Sudeste Asiático é, por excelência, um mosaico de diversidade cultural e religiosa – do cristianismo ao hinduísmo, budismo e islão. Não sinto obstáculos ao aprofundamento da nossa integração regional, que se tem desenvolvido de forma bem-sucedida. Na verdade, Timor-Leste tem condições para se tornar uma plataforma útil à CPLP na Ásia, um continente onde se têm registado as mais elevadas taxas de crescimento do Mundo.

- Timor-Leste pode vir a ser uma plataforma financeira para a região? E uma plataforma de serviços?

- No plano económico, o país tem de investir na diversificação da economia que é, atualmente, demasiadamente dependente do petróleo. Há boas perspetivas no Turismo, sendo um setor com potencial, no futuro imediato. Mas, ao mesmo tempo temos de apostar na Agricultura e no setor produtivo. O país tem condições para ser autossuficiente em produtos essenciais, mas hoje importamos quase tudo.

- Entre os desafios que enfrentamos para o desenvolvimento, estão a qualidade do ensino e a escassez de Recursos Humanos qualificados. São desafios com implicações em muitas áreas e estamos a trabalhar para os superar. Só o desenvolvimento do potencial produtivo pode, no médio prazo, elevar os níveis de vida da maioria da população e erradicar a pobreza. Isto não impede outros setores económicos de se desenvolverem, dependendo da iniciativa privada ou até de parcerias público-privadas, em casos de interesse público. O investimento estrangeiro é bem-vindo, em projetos de interesse mútuo, com benefício para ambas as partes. Timor-Leste precisa de consolidar um setor privado mais experiente e responsável, bem como uma sociedade civil consciente e afirmativa.

- Timor tem uma situação financeira desafogada graças ao petróleo, mas as capacidades para aproveitar estes meios para um desenvolvimento sustentável e inclusivo são ainda diminutas e as carências enormes. Não há o perigo de um certo assistencialismo?

- O assistencialismo não é solução para nenhum dos problemas do país. O desafio é criarmos condições para ajudar a iniciativa dos cidadãos e das famílias a desenvolver-se, por forma a contribuírem para a criação de mais riqueza e o surgimento de uma economia, mais competitiva e eficiente. Não há receitas de manual, para atingir estes objetivos. Se as houvesse já teríamos eliminado a pobreza no mundo. Mas acredito que há condições para ensaiarmos, e alcançarmos, soluções adaptadas ao país, que contribuam para estimular a iniciativa económica familiar e melhorar o rendimento disponível.

- Como referi, a agricultura e a prioridade à Segurança Alimentar são o caminho que me parece poder ter melhores resultados e maior impacto no bem-estar de mais pessoas, no médio prazo. Na Conferência de Chefes de Estado da CPLP, em Maputo, saudei calorosamente a escolha deste tema pela Presidência moçambicana. Espero que essa escolha tenha sido o início de um processo e abra uma nova área de cooperação permanente entre os nossos países.

- Como vê a inclusão dos jovens no esforço para o desenvolvimento?

- É um dos nossos maiores desafios. A economia não gera, ainda, postos de trabalho suficientes para integrar todos os jovens que, anualmente, chegam ao mercado de trabalho. Mas essa integração é uma prioridade. Só conseguiremos desenvolver uma economia dinâmica e produtiva com a participação dos setores mais ativos e inovadores da sociedade, que são os jovens. 

- Temos de investir mais – e rapidamente – no estabelecimento de polos regionais de desenvolvimento, que promovam a criação de empregos reais e respondam a necessidades locais das populações. Isto é um desafio à qualidade da Administração, porque requer serviços públicos flexíveis e reativos à realidade do país. Esta é uma prioridade central, designadamente no OE para 2014 e, espero, os anos seguintes.

- Queremos integrar melhor a nova geração na construção do país e criar condições para a sua fixação nas regiões de origem, evitando a migração desequilibrada para as cidades. 

- Como antigo comandante em chefe das Falintil, que opinião tem atualmente sobre a operacionalidade e os recursos das Forças de Defesa de Timor-Leste?

- As Falintil-FDTL estão em pleno desenvolvimento, com recrutamento de novos efetivos e planeamento e aquisição de equipamentos e capacidades. Há uma década, as Falintil eram uma força de guerrilha, acabada de descer das montanhas. Hoje, transformaram-se – pacificamente e sem grandes sobressaltos – numa força convencional, que está a desenvolver competências especializadas, da marinha à engenharia militar, etc. Têm desenvolvido valências que as qualificam, entre outras, para missões de manutenção de paz e já contribuíram para projetar a imagem do país em missões das Nações Unidas, devendo fazê-lo de novo, no futuro. É de notar, quanto a este aspeto, que este objetivo vai ao encontro da direção chave imprimida pela CPLP à cooperação militar, designadamente aos exercícios Felino, nos quais as Falintil-FDTL têm participado com entusiasmo e que eu espero que Timor-Leste possa acolher num dos próximos anos.

- Os equipamentos de que as forças dispõem condicionam a sua operacionalidade e versatilidade, mas os progressos alcançados nos últimos dez anos têm sido excecionais. Como se costuma dizer, Roma e Pavia não se fizeram num dia. 

Isabel Marisa Serafim / Agência Lusa

[África21 - Edição N.º 77]

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