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Entrevistas

Trazer à ribalta uma nova música de Angola

| Editoria Entrevistas | 04/08/2013

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MOVIMENTO é o seu novo disco. Canta-autora, de viola ao peito, voz suave e interventiva, Aline Frazão destaca-se em palco por força das luzes, por vezes acompanhada de outros músicos (na bateria e na percussão) que engrandecem as palavras cantadas com paixão. Os aplausos do público vão intercalando cada canção, em cada momento que partilha com os que a admiram. Momentos antes de mais um concerto em Sines (Portugal), foi possível esta entrevista à África21 para a conhecer melhor.

«O kuduro acaba por ser um reflexo da energia que há em Luanda. Mas tem o outro lado, de intervenção social, que não é o mais conhecido»
Sofia Costa | SIDI - Câmara Municipal de Sines

- ÁFRICA21 - Este espetáculo aqui no Centro de Artes de Sines é uma estreia. Mas não é propriamente desconhecida do público português…

- ALINE FRAZÃO - Não. Aliás é o público com o qual tenho mais contacto. Desde sempre toquei em Portugal, principalmente este ano depois do lançamento do Movimento, meu segundo álbum. Mas tocar em Sines é outra coisa. Tem outro significado para mim porque é um público muito mais exigente. É um público fiel que vai acompanhando a trajetória deste projeto diferente. Por outro lado, trata-se de um festival que junta um currículo notório de artistas muito bons. E, então, tocar aqui em Sines tem outro significado para nós por ser sobretudo o grande palco do world music em Portugal. É um momento especial.

- Este Movimento corresponde a esta interação entre Portugal, Angola e outros lugares que marcam o seu percurso? São lugares que constituem referência para a música que faz?

- Sim. Enquanto compositora sinto-me muito influenciada por tudo o que me rodeia, inclusivamente pelo espaço onde decido viver, bem como pelas línguas, os ritmos, o clima, etc. Tudo isso acaba por me afetar. Sou muito sensível nesse sentido enquanto compositora e intérprete. Talvez o primeiro disco seja mais um reflexo dessas viagens e dessa instabilidade geográfica que caracteriza o meu percurso dentro da Península Ibérica. O Movimento foi uma viagem mais interna, de regresso a Angola. Foi um disco que foi composto entre viagens, entre Lisboa e Luanda. É uma espécie de cordão umbilical ligado a Luanda, que é a minha cidade, a minha casa. Então, sinto que as músicas no Movimento dialogam muito mais com Angola, com as várias Luandas que existem.

- Mas também sente a pulsação de outros espaços como o Brasil e Cabo Verde, que estão presentes nas suas canções… 

- É claro, sim, continuo a ir principalmente ao Brasil e a Cabo Verde, que são grandes influências para mim no plano musical e familiar. Mas aí sinto que se trata mais de uma tentativa de busca. Tenho uma certa tendência para isso; se calhar para os próximos projetos já consiga pensar em explorar ainda mais a música angolana não só a nível rítmico mas também a nível temático, porque sou eu que escrevo as minhas músicas. Gostaria de viajar pelo país e descobrir um pouco mais o que existe.

- Mas quando fala dessa necessidade de explorar mais a música angolana, isso pode traduzir-se num projeto ou é ainda uma ideia por germinar?

- Na verdade não está nada em vista. São só ideias muito soltas. Ainda não me pus a pensar no próximo projeto. Estou em pleno auge do Movimento, deste novo disco que saiu em maio passado. É um facto que, como projeto pessoal, gostava de viajar mais pelo país. Já tenho vindo a fazer esse trabalho ouvindo mais as músicas do mundo rural, de modo a sair um pouco desse monopólio de Luanda, porque há sempre a tendência de se centralizar a música de um país só numa zona. Sendo Angola um país muito grande as pessoas têm mais como referência os cantores que residem em Luanda ou a música feita em Luanda, quando há muito mais que isso fora da capital. Há para lá de Luanda há muitos mais artistas. 

- Nas minhas viagens ao país tento conhecer outros artistas residentes em Luanda mas que são originários de Benguela, Huambo, do Namibe, das Lundas, etc., gente muito interessante que vem com outra bagagem e com quem posso aprender muito. Através desse contacto penso que se pode trazer à ribalta uma nova música angolana e mostrá-la fora de Angola. A música angolana ainda é muito pouco conhecida. Nota-se isso aqui mesmo em Portugal, um país que tem muita imigração angolana e uma relação histórica com Angola. As pessoas conhecem muito melhor a música de Cabo Verde. Dentro dos PALOP, Cabo Verde é a grande força, porque os seus músicos fizeram esse trabalho de preservação e promoção sem perder as raízes. A nível musical também há músicos de referência que ultrapassam as fronteiras geográficas de Cabo Verde. Em Angola precisamos de fazer esse trabalho, mantendo a raiz, mas projetando para fora do país outra música angolana, além da kizomba ou do kuduro.

- Há muito mais que isso, certamente. Como é que olha para o movimento cultural e musical angolano no pós-independência?

- Os anos da guerra civil foram muito duros. Isso impôs muitas dificuldades à vida das pessoas. Foram anos de algum bloqueio cultural. Havia muita gente a sair das províncias para se instalar em Luanda. Num país em guerra com pessoas a sofrer, a prioridade para a maior parte da população era lutar em defesa da vida, pela sobrevivência. Pela minha memória, recordo que nos anos 90 a música angolana estagnou um pouco. Houve gente como o Paulo Flores, entre outros, que esteve sempre a fazer música. Houve os casos de Waldemar Bastos ou o Bonga, que estavam fora de Angola a cantar canções de saudade, de tristeza e sofrimento devido à guerra. Mas depois da paz veio a época do kuduro.

- Receia o predomínio ou a popularidade do kuduro?

- Atualmente sou uma otimista. Das minhas viagens e das estadias que tenho feito em Luanda, vejo com satisfação o espírito de criatividade que existe. É assinalável um país como Angola que, depois da guerra, conseguiu «inventar» o kuduro – que no fundo é uma manifestação da própria cidade. 

- O kuduro acaba por ser um reflexo da energia que há em Luanda, uma espécie de agressividade, de descontrolo. Mas o kuduro tem o outro lado de intervenção social que não é o mais conhecido, embora seja forte e vivido com bastante vigor nos musseques. Isso reflete a criatividade do povo angolano. Agora, depois de onze anos de paz, penso que começa a haver condições para um maior diálogo entre os artistas no sentido de se começar a construir uma nova voz, mais atual, aproveitando todas as influências que enriquecem a nossa cultura.

- O luandense, em particular, sempre ouviu músicas de Cabo Verde, sempre dançou os ritmos do Brasil ou os estilos americanos. Por isso há uma confluência de muitas culturas numa cidade tão grande como é Luanda, marcada também por muita imigração dos países vizinhos. Tudo isto está a fazer de Luanda um cidade cosmopolita não só a nível musical, mas também no que toca à dança, às artes plásticas, nas áreas da fotografia e do cinema. Começam a florescer muitas criações e produções, o que é importante também para equilibrar com o ritmo de crescimento económico. Acho importante haver esse espaço verdadeiramente livre de criação e de expressão artísticas.

- Quando diz livre significa sem censura ou qualquer outra espécie de bloqueio que impeça a produção e a criatividade?

- Sim, sem dúvida. Isso é algo que se está a conquistar, porque durante muitos anos houve esse bloqueio político. Que não se podia falar, que não se pode dizer mal de quem está no poder. Hoje em dia já se respira melhor em Luanda. A minha geração é completamente diferente da dos meus pais e isso também tem reflexo nas criações artísticas. Sinto essa abertura. É lenta mas é uma conquista pela qual lutamos e merecemos. Acho que, entre as outras coisas importantes, a arte também vai ajudar a erguer o país.

- E também vai conquistando o seu próprio espaço em Angola e fora do país. Novidades depois deste concerto em Sines?

- Para já vamos aos Açores para tocar num festival e depois voltamos a Lisboa. Há que preparar a época do inverno. No início do próximo ano temos previsto um concerto na capital portuguesa. Esta atuação em Sines acaba por ser uma espécie de preparação para a época das portas fechadas. Vamos voltar aos auditórios e explorar um outro potencial com espetáculos mais intimistas que despertam as emoções. A minha música tem esse lado tendencialmente melancólico e quero tentar explorar um pouco isso e construir um concerto bonito para o outono e inverno.

João Carlos

[África21 - Edição N.º 77]

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