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Entrevistas

«Ser poeta é pôr-se à altura dessa vocação»

| Editoria Entrevistas | 03/11/2013

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Um dos poetas mais considerados no seu país, Corsino Fortes foi ministro, juiz e diplomata. De 2003 a 2006, foi presidente da Associação dos Escritores de Cabo Verde. Agora criou a Academia Cabo-Verdiana de Letras.

«Dou o meu aplauso a todos aqueles que estudam e aprofundam a nossa língua materna»
Arquivo África21

- ÁFRICA21 - Como surgiu a ideia de criação da Academia Cabo-Verdiana de Letras? 

- CORSINO FORTES - Houve um grupo inicial, vindo da Associação dos Escritores Cabo-Verdianos (AEC) com a ideia de fazer com que os escritores tenham um sentido maior de responsabilidade na escrita. Essa ideia, eu recebi-a há muito tempo, de Baltasar Lopes da Silva, de quem fui aluno, já adulto – porque tive de abandonar o liceu muito cedo, devido à perda dos pais, e só recomecei a estudar muito mais tarde. Quando contactei com Baltasar Lopes da Silva eu já escrevia alguma coisa, e estabeleceu-se uma certa amizade, apesar da diferença de idade. Ele transmitiu-me sempre essa ideia de que no futuro, dentro de uma situação de libertação, seria possível aquilo que à sua geração não foi. Portanto, essa ideia vinha-me de muito tempo e como presidente da AEC refleti muito sobre isso e cheguei à conclusão que era necessária uma outra estrutura. Mas pus como baliza termos um prémio Camões, sem isso não devíamos ainda avançar. Tinha consciência da expressividade literária e estética da literatura cabo-verdiana – que vem recebendo muito reconhecimento através de concursos literários – sem esquecer os nossos autores mais antigos, desde o nativismo e a geração posterior. Nesse sentido, temos um património quantitativo mas também qualitativo muito razoável. Então tive a sorte de ser designado como um dos jurados do Prémio Camões, estive lá dois anos, e levei essa ideia, de que Moçambique já tinha um prémio Camões, Angola já tinha, era necessário que Cabo Verde tivesse. Porque merecia. E tivemos o prémio, no ano passado, para Arménio Vieira. 

- Cabo Verde tem também uma Academia de Ciências e Humanidades, que congrega escritores. Mas esta tem a sua especificidade…

- Sim, foi uma boa iniciativa, mas entendemos que a produção literária deveria ter uma entidade própria. Desde o século XVII, as letras cabo-verdianas têm trilhado o seu caminho, deixando as suas impressões digitais em várias gerações na formação identitária dos cabo-verdianos. Isso tem um peso que não podia diluir-se no contexto geral das humanidades. Assim, a Academia Cabo-Verdiana de Letras só incide sobre os escritores que criam literatura: romance, conto, crónica, poesia, teatro. Diferentemente da associação dos escritores, que é muito mais abrangente, pois reúne todos aqueles que escrevem, seja qual for a vertente. 

- A Academia valoriza os escritores, mas qual o impacto que poderá ter no público em geral?

- Nos seus fins específicos, a Academia prevê preservar a memória e o legado da literatura cabo-verdiana; enaltecer os grandes vultos da produção literária nacional; promover e difundir obras e estudos sobre a produção literária cabo-verdiana e também premiar obras de reconhecido mérito, portadoras de valores universais. 

- Como vê hoje o cenário da literatura cabo-verdiana? 

- Não é por acaso que em concursos literários diversos em que tenho estado no júri, muitas vezes a presidir, a literatura cabo-verdiana tem marcado sempre pontos, com a vitória de autores nossos. Há uma pujança, não só no que diz respeito à criatividade; há muitos jovens a escrever, e a Academia vai fomentar isso, através de protocolos com as universidades e os liceus, e na criação de prémios. Mas o fundamental é o aspeto qualitativo, pois os jovens escritores devem compreender que só o talento não chega, é preciso muito trabalho. Gostei de ouvir de um jovem autor nosso que escrever é 95% de transpiração e 5% de inspiração. É preciso incutir isso no espírito dos jovens. E a leitura, pois quem não desenvolve a sua capacidade crítica não sabe avaliar o seu próprio trabalho, satisfaz-se com a primeira expressão. É preciso conhecer o que já foi escrito, para saber que se está a trazer algo e não apenas a repetir o que já se disse. Se o jovem escritor não adquirir uma formação cultural profunda, a sua vocação ficará embotada. Eu, por exemplo, aquilo que escrevi e foi publicado no último número da revista Claridade, por decisão do próprio Baltasar Lopes da Silva e que aparece numa coletânea, eu tinha consciência que era obra de debutância. Depois passei dez anos sem escrever, apenas a estudar. 

- E, contudo, edita-se muitos livros atualmente. 

- Sim, noto que hoje há uma sede de publicação rápida, porque satisfazem-se com a primeira «demão». E além disso, querem dar-se a conhecer para ter feedback. Muitas vezes, deixo o poema de lado para mais tarde poder dialogar com ele, ver com olhar crítico, até que esteja em condições. É isso que por vezes falta, essa idoneidade interior. Acredito que haja o que se chama vocação, mas ser poeta não é só isso, ele tem de pôr-se à altura dessa vocação. Quando estava na Faculdade de Direito, muita gente julgava que eu era aluno de Letras, pois nas horas vagas estava sempre lá, a ouvir, a estudar, a ler. A ganhar consciência, para ter profundidade.  

- Então, a democratização do acesso ao ensino não traz necessariamente uma melhor produção literária?

-A democratização do ensino é muito importante, pois há muitos casos em que a pessoa não encontra como desenvolver a sua vocação. Há muita gente que, vê-se, é poeta, mas não teve os meios para desenvolver-se. Por isso, a democratização faz com que muita gente escreva, e dá possibilidade, àqueles que têm vocação, de aprofundar o seu talento. Eu estudei num tempo em que só existia um liceu em Cabo Verde. Hoje, cada município tem o seu, alguns deles têm vários. Isso traz possibilidades àqueles que têm vocação, e não há dúvida que o nosso enriquecimento está aí. Há muita coisa na gaveta. Quando há um concurso, vemos a grande quantidade de trabalhos concorrentes. No concurso da Sonangol, por exemplo, grande parte dos trabalhos apresentados é de Cabo Verde. E por vezes são premiados por unanimidade.     

- Podemos esperar uma nova obra sua para breve?

- Eu pensava que já era um poeta desempregado, mas a poesia tem-se imposto. Tenho estado a trabalhar. 

- Como vê a relação da língua portuguesa e da cabo-verdiana e o processo de oficialização desta última? 

- Na minha vida diplomática, presenciei um alto dirigente angolano a falar numa certa zona do país, com tradutor, pois não dominava aquela língua. Depois comentou connosco: temos tantas línguas em Angola e temos de aprofundar essas línguas, mas ainda bem que temos uma língua de unidade, que é o português. Ouvi isso também em Moçambique. Dou o meu aplauso a todos aqueles que estudam e aprofundam a nossa língua materna. O nosso primeiro-ministro levou recentemente a língua cabo-verdiana à sede das Nações Unidas, o que é uma grande dignificação. Temos uma nação em rede, e acho que estamos a caminhar para uma consciência sociológica de que esta nação, com várias comunidades pelo mundo, tem uma língua. Quando a escola estiver a ensiná-la, será um grande passo. E felizmente temos uma só língua nacional. 

- E mesmo assim já dá tanta discussão, não é? 

- Mas é fundamental que dê. Porque isso é Cabo Verde. Quando se questiona, é que vamos avançar. Mas, por outro lado, temos todo o universo da língua portuguesa, que – já dizia Amílcar Cabral – foi o melhor património que o colonialismo nos deixou. Estas duas línguas são irmãs, uma é a nossa língua uterina, outra é pela via consanguínea. Estamos a caminhar para um verdadeiro bilinguismo, ultrapassando a diglossia [hierarquização entre as duas línguas em presença] que ainda hoje se verifica. 

-O que pensa das polémicas e resistências face à grafia do cabo-verdiano pelo Alfabeto Unificado para a Escrita do Cabo-Verdiano? 

- O grande problema, penso, são as reivindicações. A herança que temos da literatura é da escrita etimológica. Mas os intelectuais de formação científica pretendem que a nossa língua tenha uma escrita de acordo com normas internacionais, científicas, e não na base da etimologia. E têm razões para defender isso, cientificamente é correto. Mas o peso da tradição também existe, e as pessoas que não têm esse conhecimento científico reagem. 

- Haverá talvez uma solução negociada? 

- Acho que a juventude é que vai resolver esse problema. Mas também me parece que a forma de apresentar o ALUPEC não foi a melhor, talvez tenha faltado uma certa dose de diplomacia. Mas isso que estamos a enfrentar é próprio do cabo-verdiano. E também a língua é um organismo vivo, ela desenvolve-se. A televisão, a literatura, as universidades irão influenciar isso.

Gláucia Nogueira

[África21 - Edição N.º 80]

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