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Entrevistas

«O Ocidente aproveita-se dos nossos problemas internos»

| Editoria Entrevistas | 02/10/2013

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Sociólogo e professor, o angolano Paulo de Carvalho defende a contestação, mas não a tentativa de derrubar pela força governos legítimos. Para ele, os governos que não aceitam críticas não querem, de facto, corrigir-se.

«O Governo deve continuar a dialogar com a juventude mas também com o resto da sociedade»
Fernanda Osório

- AFRICA21 - Os protestos juvenis transformaram-se, desde os acontecimentos na Tunísia e noutros países do Norte de África e Médio Oriente, num fenómeno tendencialmente global. Como avalia a sua repercussão em Angola?

- PAULO DE CARVALHO - O mundo está a tomar novo rumo, muito rapidamente. As novas tecnologias estão a revolucionar o mundo, em todos os sentidos – repito, em todos os sentidos. Era de esperar que isso ocorresse, mais tarde ou mais cedo – só não se esperava que ocorresse com tal dimensão, ao ponto de derrubar governos de forma tão rápida. Lamentavelmente, os poderes (e o nosso não é exceção) nem sempre estão preparados para grandes mudanças, em tão pouco tempo. E esse tem sido o principal mal, que por enquanto atinge em maior grau o Hemisfério Sul, mas que começou também já a ocorrer na Europa e vai alastrar-se por outros cantos, podemos estar certos. 

Não há inibições de natureza cultural, porque a vontade de mudança é cada vez maior no mundo. Portanto, Angola não poderia estar a leste de tudo isso. Angola faz parte «deste mundo», sendo mesmo um dos países de África com grande tradição de adaptação aos costumes e modas vindos de fora. 

- Na sua opinião, as autoridades reagiram corretamente às tentativas de manifestação realizadas por certos jovens angolanos?

- As manifestações são apenas boa parte da ponta visível do iceberg. Desde 1993 que muitos de nós temos chamado à atenção para os erros que se vêm cometendo. Na maior parte das vezes somos mal interpretados, quem governa prefere ouvir elogios a críticas, o que significa estarem criadas as condições para a reivindicação. Quem governa tem de saber ouvir críticas, para corrigir a sua atuação. Só não ouve e não aceita críticas quem não pretende corrigir-se. E o resultado disso é, invariavelmente, o crescimento da contestação. 

- Algumas vozes, em Angola e também em outras partes do mundo, acham que os protestos juvenis dos últimos dois anos fazem parte de uma estratégia do Ocidente para desestabilizar certas regiões do globo. Está de acordo?

- Claro que sim. Não podíamos, aliás, esperar outra coisa. Quem comanda o mundo tem de ter habilidade para aproveitar tudo o que ocorre em seu benefício, em benefício da sua estratégia de comando. E podemos crer que os Estados que mexem os cordelinhos desse comando sabem adaptar-se rapidamente às mudanças que ocorrem, tirando daí benefício. Também há manifestações na Europa, mas aí o comando vai manejando com mais calma, pois não interessa potenciar as já várias intenções de revolta no continente europeu. Não podemos esperar que connosco ocorra atitude idêntica.  

- Quanto a nós, os dependentes do Hemisfério Sul, ou alinhamos na estratégia de quem comanda o mundo e agimos com honestidade, ou arriscamo-nos a «perder o barco». Penso que estamos, neste momento, muito mais vulneráveis do que estávamos há três ou quatro anos.

- Esses protestos têm também causas internas?  

- Claro que têm causas internas. O que me parece é que a efervescência é interna e isso é depois aproveitado lá por fora, para potenciar o desejo de revolta. Mas a essência são mesmo causas internas, promessas que não foram feitas na devida altura, promessas que não estão a ser cumpridas e programas que não são executados como deveriam. Mas eu admito manifestações e até admito contestação, só não sou a favor do derrube de governos legítimos, pois o poder não pode cair na rua, o exercício do poder não pode depender da intensidade da revolta. Sou a favor da reivindicação e, mesmo por isso, tenho de ser contra qualquer tipo de marcha para derrubar este ou aquele governo. Se escolhemos a democracia, então temos de encontrar formas de chegar ao poder pela via constitucional. Nenhum governo (seja ele qual for) aceitará de ânimo leve o seu derrube da forma como alguns pretendem e proclamam.

- No caso de Angola, quais são essas causas internas?

- As causas internas são várias. Uma delas tem a ver com prestação de contas. Durante muito tempo, as pessoas foram dando conta da concentração da riqueza num grupo muito pequeno de cidadãos, numa clara guinada à direita que pouco trouxe de vantajoso para o partido político que governa o país. Aquilo que se começou a fazer recentemente deveria ter começado há muito mais tempo. Refiro-me ao boom no acesso à instrução (e ao ensino superior), ao investimento nas instituições estatais de saúde e à aposta (que ainda não é nítida) na agricultura e na indústria, que são os setores que vão fomentar emprego para todos os angolanos. A guerra foi o primeiro grande entrave a esse projeto (que é o projeto do programa maior do MPLA), mas houve outros entraves. E a juventude não quer mais ouvir falar da guerra como causa dos seus males, porque de facto poderíamos estar a viver melhor. Temos de reconhecer ter havido boas apostas depois do final da guerra, mas as pessoas querem muito mais – e já! Começamos a sofrer os efeitos disso. E atenção, que por este andar será ainda pior daqui a cinco ou dez anos.  

- Alguns intelectuais angolanos que residem no estrangeiro acham que estão reunidas as condições para uma revolta de larga escala no país. Está de acordo?

- Condições para revolta claro que há, mesmo desde os tempos da guerra. Analistas e cientistas sociais temos chamado à atenção para isso, algumas vezes até apontando soluções para diminuir esse mal que se alastra. E sempre que um governante nomeia um familiar próximo, sempre que se sabe de mais um arranha-céus a favor deste ou daquele que já tem vários e nenhum deles foi herdado, sempre que falta água nas torneiras e que há cortes de energia elétrica depois de milhões e milhões gastos nesses setores, sempre que abre uma cratera numa estrada reparada há poucos meses e sempre que ocorre uma denúncia de corrupção sem que as competentes autoridades levem o assunto a peito, aumenta o sentimento de revolta.  

- Agora, se me pergunta se eu concordo com uma bandeira de revolta que conduza à chacina de governantes, é claro que a minha resposta tem de ser negativa. Não podemos dizer aqui que somos a favor da paz, mas acolá apregoarmos a revolta e a chacina. Não podemos criticar os erros dos governantes e vir depois para a rua clamar por morte aos governantes, para errarmos tanto ou mais que eles. 

- Como avalia a iniciativa do Presidente angolano de promover um diálogo com a juventude à escala nacional?

- Sou daqueles que consideram que todas as iniciativas de diálogo são bem-vindas. É necessário dialogar com a juventude e é mesmo indispensável incluir nesse diálogo os muitos jovens que não estão filiados em quaisquer organizações. A iniciativa é bastante boa, sendo agora necessário alargar esse diálogo a outras franjas da sociedade, que são normalmente marginalizadas, mas que têm grande ascendente sobre a juventude e sobre outras camadas sociais. O Presidente e os ministros têm também de ir às universidades, dialogar com as pessoas (com os mais jovens e com os menos jovens). Esta é uma saída, que se deve aliar a outras soluções que referi antes. Muitas vezes, não é preciso esperar pela obra feita, basta demonstrar devidamente que ela está em curso. E depois, é preciso mostrar que estamos todos «no mesmo barco», isto é, que as dificuldades são para todos. 

- Não se tratou de uma iniciativa partidária, para esvaziar os protestos juvenis em Angola?

- Não me parece que tenha sido isso. Todo o diálogo é favorável. Quando se dialoga, aprende-se. Reafirmo, pois, a necessidade de o diálogo prosseguir, seja com jovens não enquadrados em organizações da sociedade civil, seja com outras franjas da sociedade. Os governantes têm de governar para alguém, o que exige que tenham conhecimento das reais necessidades e das expectativas dos governados.

- O emprego foi apontado pelos participantes do diálogo entre as autoridades e a juventude como o principal problema dos jovens angolanos. O que deve fazer o governo para resolver esse problema?

- A economia angolana é extremamente débil, não se deve portanto estranhar que o emprego seja apontado como principal problema da juventude. Para resolver este problema, tem de deixar de se apostar preferencialmente no setor dos serviços, passando a apostar-se na agricultura e na indústria. Angola tem de deixar de depender do petróleo, pois essa opção promove o subdesenvolvimento e não permite a proliferação de postos de trabalho e o fomento do emprego estável. Mas por outro lado, é preciso deixar de criar empregos de forma fictícia, ao nível da função pública e empresas públicas – pois isso, de facto, vem promovendo o subemprego, que corrói ao invés de contribuir para o desenvolvimento das famílias e do país. A força de trabalho excedentária tem mesmo de ser encaminhada preferencialmente para os setores da agricultura e da indústria. 

- Quais são, para si, os outros problemas principais dos jovens angolanos?

- Um dos principais problemas da juventude tem a ver com a elevada dose de corrupção no ensino, desde o nível básico ao superior. Aliás, isso vai-se refletir depois no emprego dos jovens e, também, na economia do país. Não se pode construir um país inculcando nas crianças e jovens que o que está certo é o desejo de amealhar sem olhar a meios. E é isso que se tem feito todos estes anos, com o beneplácito de quem dirige as várias instituições de ensino. É tempo de dizer basta, é tempo de apostar em qualidade.  

Depois deste, há outros problemas que afligem a juventude angolana, como o problema da habitação e a questão relacionada com o indispensável investimento nos dois mais importantes setores da economia: a agricultura e a indústria. Há ainda problemas como o crédito à atividade profissional, a aposta na qualidade do serviço público de saúde e a assistência social. Há muito por fazer, mas a base deverá ser a luta contra a improvisação, deverá ser a definição de metas e de regras, que depois devem ser realmente cumpridas. E os órgãos de fiscalização devem funcionar, sem esquemas e sem compadrios.

Carlos Severino

[África21 - Edição N.º 79]

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