Publicidade

Publicidade

Publicidade

África 21 OnlineÁfrica 21 Online

Registre-se na nossa newsletter e mantenha-se informado.
África 21 no Facebook

África 21 Online

Pesquisa

Siga o portal África 21

Feed RSS Twitter Facebook

Edição Impressa

Edição do Mês

Destaques da edição de Agosto de 2019

ÁFRICA

EXPLOSÃO DEMOGRÁFICA EM ÁFRICA, UMA BOMBA AO RETARDADOR

ÁFRICA

O PARADIGMA PARTICULAR DA DEMOGRAFIA VERSUS DESENVOLVIMENTO

ANGOLA

EXPLOSÃO DEMOGRÁFICA UMA BOMBA DE EFEITO RETARDADO

EUROPA

O PESADELO DEMOGRÁFICO QUE ASSOMBRA A EUROPA

MOÇAMBIQUE

POR ALGUNS DÓLARES MAIS

MUNDO

MUDANÇAS CLIMÁTICAS PODEM ENGENDRAR “APARTHEID GLOBAL”

VENEZUELA

O CAPCIOSO RELATÓRIO BACHELET

ÁFRICA

RUMO A UMA ÁFRICA INTEGRADA E PRÓSPERA

Rádio

Publicidade

Entrevistas

Paulo Cordeiro de Andrade Pinto: "Uma das grandes riquezas do Brasil é a sua capacidade de formar recursos humanos"

| Editoria Entrevistas | 12/09/2014

-A / +A

Imprimir

-A / +A

Entrevista com Paulo Cordeiro de Andrade Pinto. Subsecretário geral político para África e Oriente Médio do ministério das Relações Exteriores do Brasil.

«Há uma expressão de um pesquisador nigeriano que trabalha em Harvard: “No Brasil, há a solução para todos os problemas de África”.»
(DR)

O Brasil possui hoje 37 representações externas. Há investimentos brasileiros em todos esses países?

Paulo Cordeiro de Andrade Pinto: O Brasil possui 37 embaixadas e dois consulados gerais na África. Não há investimentos em todos estes países. Nós temos uma enorme diferença em termos de investimentos de companhias brasileiras, já que quase todas elas se concentram em quatro ou cinco países, mas há um investimento político.

Qual tem sido o papel da diplomacia no incentivo ao investimento brasileiro na África? Pensa que já se fez tudo ou ainda se pode fazer mais?

PCAP: O papel da diplomacia na promoção dos investimentos brasileiros é contínuo. Primeiro, porque se fala na renascença africana, na verdade é um lançamento e crescimento no desenvolvimento daqueles estados nacionais que foram quase todos estabelecidos no século XX. Eram territórios que estavam sob domínio europeu e que tinham economia de caráter colonial, e agora tentam ultrapassar isso para criar suas bases nacionais com áreas mais amplas de integração. Isso gera a necessidade de uma infraestrutura que é exatamente oposto à do período colonial, onde era feita uma estrada de ferro só para escoamento de produtos específicos. Agora, a Tanzânia quer estar junto de Uganda, do Quénia e o objetivo é o bem-estar da população e o crescimento do país. Há também uma grande demanda por educação e saúde; em tudo isso o Brasil pode estar presente. Nós não temos ainda, no Brasil, instrumentos que possibilitem uma presença mais efetiva. Ainda temos uma legislação e uma prática do tempo em que o Brasil era um grande devedor na área de financiamento. No final dos anos 80, quando o Brasil possuía uma reserva de 100 milhões de dólares, tinha que operar de certa maneira. Hoje, temos uma reserva da ordem dos 300 mil milhões de dólares e temos uma economia mais diversificada, uma interação maior com o mundo… então é necessário mudar isso.

Quais são hoje os principais entraves para a criação de novas parcerias do Brasil com os diferentes países africanos?

PCAP: A presidente Dilma instruiu o Governo Federal a criar um grupo de trabalho sobre África. Isso foi feito em 2012/2013, e foram feitas uma série de sugestões que estão a ser processadas. Uma delas é a questão do financiamento da atividade das empresas brasileiras em África, ou seja, nós atualmente necessitamos de um perfil de garantias que muitos países parceiros não têm condições de corresponder. Por exemplo, 92% dos financiamentos brasileiros dirigem-se a Angola. Os outros países não têm o mesmo perfil nem a mesma experiência que temos em Angola, com Petróleo, garantias, etc. Então, nós estamos dando “tratos com a bola” – quando digo “nós” refiro-me ao ministério de Relações Exteriores, ministério da Fazenda, ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Apex (Agencia Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos); todos estes órgãos do Governo Federal que são parceiros na construção dessa relação com a África. Mas temos outras coisas, por exemplo, certa diplomacia com o setor da saúde da nossa política externa, com o ministério da Saúde; o setor agrícola, onde tem o ministério de Desenvolvimento Agrário, o ministério da Agricultora, a EMBRAPA; o setor da educação, com uma presença cada vez maior. Então, o Brasil tem os elementos para uma presença maior e é o que sempre dizemos: A nossa cooperação e a nossa área de investimento responde à demanda de nossos parceiros, precisamos aperfeiçoar os instrumentos. Nós não temos, por exemplo, uma lei geral de doação, cada exercício tem que passar pelo Congresso, numa legislação setorial e precisa, o que de certa maneira dificulta. Nossos pesquisadores da EMBRAPA ou da Fiocruz não podem permanecer muito tempo no país que recebe a cooperação, porque a legislação brasileira ainda não foi adequada.

Os maiores entraves estão do lado brasileiro ou do lado africano?

PCAP: Existem entraves dos dois lados. Do nosso lado porque temos que responder à demanda deles e do lado deles porque muitas vezes não têm ou não desenvolveram a capacidade, dentro do aparelho do Estado, de definir prioridades com a necessária rapidez. Por exemplo, certo país que desejava fazer plantações de cana, desenvolver uma indústria de etanol, nunca chegou a fazer aquilo que o Brasil fez em certo momento – uma lei que cria um mercado para aquele produto e que estabelece padrões de adição de etanol na gasolina, porque o que aquele pais queria, efetivamente, era reduzir os custos da importação de petróleo. Nós passámos por isso quando construímos a Brasil e é compreensível que eles passem pela mesma coisa.

Como acredita que esses problemas possam ser superados e quais são hoje as principais demandas dos países africanos em relação ao Brasil?

PCAP: Há uma expressão de um pesquisador nigeriano que trabalha em Harvard: “No Brasil, há a solução para todos os problemas de África”. Eu, como responsável, digo o seguinte: o Brasil não tem ainda instituições e recursos para responder a todas estas demandas. Então, é preciso muito que nós saibamos distinguir e ver as prioridades. Uma das grandes riquezas do Brasil é sua capacidade de formar recursos humanos. E para isso nós estamos disponíveis. Se me permite uma pequena história: em 1983, por iniciativa da ONU, recebemos no Rio de Janeiro um grupo de membros da Suapo, que vivia em Angola, e queriam um curso sobre como desenvolver legislação para a área de mineração, pois sabia que ia encontrar um país rico em diamantes e urânio. Isso fez com que pouco depois, quando houve a independência, eles nos procurassem para proteger outra riqueza da Namíbia - as tribos da Namíbia viviam no deserto e nunca olhavam, mas eram donos de um mar. Por isso, pediram para se formar, no Brasil,  o que se chamou de Ala Marítima das Forças de Defesa da Namíbia, que hoje é uma pequena Marinha que fala português. Então, uma experiência desencadeia outra. Quando houve a necessidade de que os sul-africanos saíssem da Namíbia, Cuba tinha que sair de Angola. Então, nós instalámos uma pequena unidade militar brasileira na força da ONU, que serviu mais ou menos de fiel para a questão. Essa experiência brasileira levou a Namíbia a fazer uma outra coisa – pedir que nós os ajudássemos a delimitar a plataforma continental, o que fez com que Angola visse e também pedisse. Ou seja, as experiências brasileiras, na solução de seus problemas, têm levado não as 37 embaixadas brasileiras em África, mas as 34 embaixadas africanas em Brasília, a fazer demandas cada vez maiores. Por exemplo, nós tivemos no Brasil um problema no ano passado, por causa da questão dos transportes públicos. Muitos países como o Camarões, Moçambique ou Gabão estão querendo usar a nossa experiência no BRT para minorar os problemas no transporte público nas suas capitais, pois há problremas cada vez maiores e essa nossa experiência é uma espécie de tesouro sem fim para países que sofrem aqueles fenómenos que o Brasil sofreu – o êxodo rural, o aumento das cidades, a demanda por maior conforto, etc.

No Brasil, nos últimos anos, tivemos um avanço muito grande nas relações com a África. Na hipótese de uma alteração política grande, acha que pode haver algum retrocesso nesta relação com África?

PCAP: Parece-me que não. Eu acho que há no Brasil aquela visão um pouco utilitária de que a África é um grande mercado. Segundo há uma outra transformação que o Brasil sofreu – a valorização do povo afro descendente. Há uma lei de 2003 que obriga o Estado brasileiro a ensinar a história de África, e uma África cada vez mais próspera ela é fonte de orgulho daqueles que traçam a sua descendência para o continente. E há uma imensa ignorância no Brasil sobre a África que a revista África 21 ajuda a minorar. Por exemplo, se alguém vai a Lalibela, na Etiópia, ao Gondar ou ao Grande Zimbábue, contraria aquela visão, que já é do passado, de que não existiram civilizações na África. Ou se alguém vai para a África Ocidental, que são civilizações que não são de pedra e cal, mas são de madeira, de histórias; essa aproximação do Brasil com a África nos traz um imenso enriquecimento.

João Belisário 

Imprimir

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Siga o portal África 21

Feed RSS Twitter Facebook
África 21 Online

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Publicidade